País deve ter sua maior crise de emprego
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de outubro de 1998
Agência Estado 
A dupla ajuste fiscal e juros altos pode transformar a recessão esperada para o 1999 na mais grave que o País já enfrentou do ponto de vista do emprego. O País entra em desaceleração com a mais alta taxa de desemprego dos períodos pré-recessão. Hoje, o índice está em 7,8%, segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos outros dois períodos recessivos da história recente do Brasil 1981 a 1983 e início dos anos 90 , a economia entrou em retração quando estava com taxas baixas de desemprego. Em 80, o desemprego estava em 3,4% e em 1989 era de 3,0%, segundo, respectivamente, o Censo e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE.
O mercado de trabalho está mais precário: aumentou a participação de trabalhadores por conta própria e sem carteira assinada. Desde 1990, 2,5 milhões de trabalhadores perderam o emprego formal. No mesmo período, mais de 5 milhões passaram a ser empregados sem carteira assinada. Na hora da demissão, esses trabalhadores não terão direito a 13º salário, seguro-desemprego e outras verbas pagas na rescisão do contrato de trabalho, observa o economista Márcio Pochmann, da Universidade de Campinas. É mais fácil dispensar esses trabalhadores, observa.
Outro complicador é que as demissões tendem a se espalhar pelo País e pelos diferentes setores da economia. Nos outros períodos recessivos as demissões concentraram-se na indústria, atingindo principalmente os grandes centros urbanos. As estimativas para 1999 apontam a demissão de funcionários públicos como uma alternativa para equilibrar as contas públicas e limitar os gastos com pessoal a 60% da arrecadação da União, Estados e municípios. Se isso for realmente feito, a redução do emprego público vai espalhar efeitos recessivos pelo País, pondera Pochmann. Ele lembra que em muitas cidades do interior, a Prefeitura é o principal empregador.
Nas estimativas da Tendências Consultoria Econômica, a taxa de desemprego medida pelo IBGE vai ficar em 10% na média do próximo ano, chegando perto de 13% no primeiro trimestre. O desemprego vai aumentar, com uma parcela conjuntural e outra estrutural, representada pela manutenção e reforço dos projetos de reestruturação empresarial, pondera a economista Denise de Pasqual. Para Pochmann, a taxa média do ano pode ficar em 13%. A estimava da Tendências considera uma queda de 1,5% no Produto Interno Bruto (PIB), explica a economista Denise de Pasqual. A previsão para 99, de menos 1,5%, não é um número mais forte que a recessão de 1992, mas parte de uma base muito baixa, observa. Em 1989, a economia cresceu 3,2%. Em 1988, o PIB deve evoluir menos de 1%. O governo vai fazer um ajuste com dois lados, observa Denise, lembrando que além do corte de gastos públicos , o aumento de impostos retira renda da sociedade, comprimindo gastos e atividade.
Pochmann explica que hoje em dia é preciso muito mais crescimento do PIB para provocar aumento do nível de emprego. E quedas menores do produto provocam um estrago maior no índice de desemprego. No período 1981-83, a queda acumulada de 6,1 pontos porcentuais no PIB provocou um aumento de 40% na taxa de desemprego do País. Entre 1990-92, o PIB caiu 3 pontos porcentuais, provocando um aumento de 130% no índice de desemprego, calcula. O efeito sobre o desemprego está muito mais rápido e intenso, diz ele.
No último trimestre de 1997, a economia estava crescendo a uma taxa de 3,6% em 12 meses. Essa velocidade caiu para 1,4% no segundo trimestre de 1998. Essa queda de 2,2 pontos porcentuais no ritmo de crescimento do PIB já provocou um aumento de 3 pontos porcentuais no índice de desemprego, explica, lembrando que a taxa estava em 4,8% em dezembro de 1997 e já está em 7,8% (dado de agosto). O efeito negativo sobre o emprego é mais imediato, diz ele, por causa da contratação precária. Sem registro, o custo de demissão é menor.


