País deve se proteger contra ameaça externa
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terça-feira, 13 de maio de 2008
Edson Pereira Filho<br> Reportagem Local 
O Brasil está em vias de se consolidar no mercado mundial como primeira potência agrícola, porém necessita fazer a lição de casa e se proteger contra ameaças externas. Uma dessas ameaças, é a compra por parte de megainvestidores de usinas e extensas áreas de plantio de cana-de-açúcar no Brasil, para produção de etanol. Outra, de cunho especulativo, é o subsídio americano e europeu que fortalece o agronegócio destes continentes e, ao mesmo tempo, empobrece a agricultura dos países emergentes. A infra-estrutura e a pesquisa também precisam de pesados investimentos, para que o País pegue de vez este bonde da história. Concomitantemente, o Paraná pode ser o protagonista interno deste crescimento.
Os subsídios, como o próprio nome diz, subvencionam a agricultura de países europeus e americanos. Antes mesmo de plantar, o agricultor do primeiro mundo recebe pela produção que será colhida. Os governos dos países ricos se ocupam em oferecer a produção para o mundo, a preços bem abaixo dos praticados nos países consumidores. Isso quebra as pernas da agricultura dos países em desenvolvimento, que não conseguem enfrentar a subvenção americana.
Este ciclo se repete, de maneira acentuada, desde os anos 90. A produção de grãos só por parte dos EUA e de países da Europa acabaram provocando falta de grãos e hoje, segundo a FAO, há 800 milhões de famintos no mundo. Os estoques de alimentos estão 31% abaixo dos níveis aceitáveis, existindo hoje nos estoques mundiais 400 milhões de toneladas.
Instituições de pesquisas pelo país afora, estão sucateados, sem investimentos para o aumento da produtividade e da competitividade externa. Um Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) da Embrapa, envolvendo 47 instituições de pesquisa e 138 pesquisadores, coordenado pelo pesquisador João Flavio Veloso Silva, líder do Projeto Biodiesel deflagrado pelo governo federal este ano, tenta dar novo alento às pesquisas. ''Está havendo pesados investimentos na área de pesquisa a partir de agora'', afirma o pesquisador.
Para o secretário de Agricultura do Paraná, Valter Bianchini, os próximos dez anos serão decisivos para o País e para o Estado. ''O Brasil tem potencial de área, de tecnologia e o Paraná também pode ocupar este processo, seja na produção de alimentos ou na produção de bionergia. Este momento de crise bioenergética para nós é de oportunidade. Fazer crescer nossa agricultura, nossa pecuária, e não só garantir a segurança alimentar do Brasil como do mundo''.
Segundo Veloso, existem muitos interesses econômicos de fora do País comprando terra aqui. Penso que, especialmente, esta deveria ser uma preocupação brasileira, nós estamos assistindo aí uma internacionalização da cana, que o Brasil desenvolveu uma tecnologia fantástica. Enfim, existem vários grupos comprando terras por aqui para este fim, George Soros, Bill Gates, Clinton com participações em produção em etanol. Está havendo grande interesse internacional em áreas no Brasil para produção de energia. Isto deveria ser uma preocupação do governo brasileiro, deveria rapidamente verificar isso porque esta é uma situação complicada.
''Esses grandes investidores não vêm atrás só de dinheiro, mas utilizam a tecnologia tropical de 500 anos desenvolvida por institutos brasileiros na produção de cana-de-açúcar, querem dominar a bioenergia no mercado internacional. ''O governo deveria tomar providências a este respeito'', declara Flavio Veloso, da Embrapa
FOLHA - Para continuar crescendo, o Brasil teria que otimizar a área já plantada ou avançar sobre as terras ociosas?
Veloso o Brasil tem para expandir cerca de 90 milhões de hectares, que já estão abertos. São áreas de pastagem, com algum estágio de degradação, pastagem que não estão sendo utilizadas de maneira adequada, em todo País, especialmente na região centro-oeste. Poderíamos utilizar tanto para agroenergia quanto para produção de alimentos, ou ambas. Quando se fala por aí que estamos utilizando soja para produzir energia, na verdade o produto principal da soja é a proteína, é farelo, este é o produto valioso da soja. O óleo da soja é um subproduto da produção desta proteína. Cerca de 50% de nossa produção é exportada em grãos. Se nós processarmos aqui o grão, produziremos farelo e óleo. Assim, nós poderíamos atender o programa de biodiesel tranquilamente, somente com soja.
O subsídio europeu e americano engessam a produção agrícola brasileira?
Bianchini - Atrapalha, tanto que na Rodada Doha, no continente Africano, a própria fala do presidente Lula, foi neste sentido, que os subsídios têm criado problemas, não só para nossa entrada de produção na Europa, mas também dos produtos agrícolas europeus em outros países forçando a queda de preços. Um dos fatores nos anos 90, que faltou estímulo para produção, foi justamente esta questão do subsídio nos países do norte, provocando queda de preços no mercado mundial, dificuldades de renda, por isso que agricultura hoje está nesta situação.


