Embora seja uma tecnologia conhecida e discutida no Brasil desde o final dos anos 70, por conta da crise do petróleo, a utilização do biogás produzido pelo lixo para geração de eletricidade nunca foi realizada no país.
As razões, segundo o engenheiro especializado em energia João Alves, da Divisão de Questões Globais da Companhia de Saneamento em Tecnologia Ambiental de São Paulo (Cetesb), vão da falta de coleta de lixo, más condições dos aterros até a falta de recursos, incentivos e interesse. ''Nada, porém, que justifique o atraso na implantação desse tipo de iniciativa'', disse.
Produzido em aterros e lixões, esse biogás é formado por 49% de gás carbônico, 1% de gases ácidos e 50% de metano, que pode ser aproveitado para gerar eletricidade. O potencial desse segmento não é suficiente para resolver a crise energética brasileira e requer investimentos altos, mas tem caráter ambiental importante, visto que esses gases estão colaborando para a poluição das regiões onde estão instalados os aterros e para o efeito-estufa.
''A captura desses gases é muito importante do ponto de vista global e da poluição local. Como energético, porém, não vai resolver o problema de nenhum país, mas ajuda um país ou estado a diversificar sua fonte energética. Isso é importante, pois já sabem os que os recursos naturais são finitos e não podemos depositar todas as fichas em um único recurso, como a água, no Brasil, ou o carvão, nos Estados Unidos'', diz Shelley Cohen, da US Environmental Protection Agency (USEPA). Atualmente, projetos de aproveitamento de biogás representam cerca de 900 MW naquele país.
No Brasil, existem hoje apenas dois aterros realizando o aproveitamento do gás em seus processos de evaporação de chorume, em Tremembé (São Paulo) e Salvador. A empresa Ecosecurities anunciou, para o próximo ano, o início de operações de cinco projetos, em vários estados brasileiros, com um potencial de 12 MW. No município de São Paulo, dois aterros - Bandeirantes e Sapopemba - possuem projetos aprovados para geração de energia com biogás há cerca de cinco anos, mas também não entraram em operação.
''A maior barreira para esses projetos é a sanitária. Em um País onde há estados que coletam apenas 40% do seu lixo, a recuperação energética do gás deixa de ser uma prioridade. Mesmo em São Paulo, onde 100% do lixo urbano é coletado, apenas 11% dos aterros estão em condições satisfatórias'', diz João Alves. Para o engenheiro da Cetesb, existem também dificuldades em identificar fornecedores de tecnologia de coleta e aproveitamento do biogás, pois os equipamentos são todos fabricados fora do país, e falta de pesquisa para internalizar essa tecnologia. Também não existe nenhum incentivo ou obrigação legal aos gestores de aterros para aproveitar o gás.
Para os investidores envolvidos no processo - prefeituras, gestores de aterros, concessionárias -, os custos são considerados altos. ''A implantação de uma usina de eletricidade a base de biogás custa cerca de US$ 1 mil por KW instalado. Um aterro como o Bandeirante, por exemplo, com potencial de 20 mil KW (ou 20 MW) custaria cerca de US$ 20 milhões, para uma energia vendida a uma concessionária a US$ 40,00 o MWh, um investimento com retorno em cerca de 7 anos'', explica Alves. Nessas contas, porém, não há como embutir os ganhos ambientais.
Esse quadro deve mudar, no entanto, conforme cresçam os custos da energia e também quando entrarem em vigor os mecanismos de desenvolvimento limpo, ou créditos de carbono, que poderão compensar os investimentos. Somente no município de São Paulo, são produzidas 2,5 toneladas de lixo por dia, com um potencial de 48 MWh, que poderiam fornecer energia para 96 mil residências.

mockup