Pagar FMI não traz alívio aos brasileiros
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domingo, 18 de dezembro de 2005
Fernanda Mazzini<br> Reportagem Local 
A antecipação de pagamentos de parte da dívida externa brasileira com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em nada irá beneficiar ou provocará mudança no dia-a-dia dos brasileiros. Essa é a afirmação de economistas que estudam o assunto ante o anúncio do governo federal, feito na última terça-feira, de antecipação de pagamentos que haviam sido programados para 2006 e 2007. Para isso, o Banco Central irá usar cerca de US$ 15,5 bilhões de reservas internacionais.
Na avaliação do economista Almir Rockembach, especialista em Dívida Pública e Sistema Tributário, o anúncio representa a adoção de uma política ''de um governo fortemente comprometido com financiadores externos da dívida pública''. Já o economista Ismael Mologni, não vê demérito na ação, mas acredita que o momento não é propício, pois no próximo ano serão realizadas eleições eleitorais e poderá haver fuga de capital, uma vez que as taxas de juros devem ser reduzidas, como já anunciou o governo.
Até setembro, a dívida pública somava cerca de R$ 973 milhões. Deste total, R$ 895 milhões se referem à dívida interna e, o restante, R$ 77 milhões, à dívida externa. Isso significa que do total da dívida pública brasileira, 92% resulta do débito dos Estados com a União. Somente os 8% restantes é dívida do governo federal com credores internacionais. Esse pagamento antecipado representa cerca de um terço do total da dívida pública externa e o custo financeiro dessa dívida é menor do que o do débito interno.
''Para o cidadão, esse pagamento não muda nada ou até pode causar um atraso maior, uma vez que o dinheiro usado para antecipar essas parcelas poderia ser aproveitado em obras de infra-estrutura, o que o governo não fez nos últimos três anos'', avalia Rockembach. Segundo ele, a afirmação de que haverá uma economia de cerca de US$ 900 milhões no pagamento de juros também não faz sentido, uma vez que o total da dívida pública consome cerca de R$ 500 milhões, por dia, em juros.
Diante deste panorama, a conclusão do economista é que a antecipação do pagamento irá gerar uma economia de apenas dois dias de juros. ''Isto me parece mais um apêndice do discurso político do tipo 'me engana que eu gosto''', afirma.
Conservador - Já na avaliação de Ismael Mologni, a antecipação do pagamento deixará o País mais livre na definição de políticas econômicas, uma vez que o FMI é bastante conservador com relação aos seus credores. ''Para o povo isso (a antecipação) não melhora em nada. Apesar de não ser nenhum demérito antecipar os pagamentos, a redução das reservas cambiais pode causar um problema sério'', disse.
Segundo ele, o governo federal está acuado em função das pesquisas eleitorais e do pleito, marcado para o próximo ano. ''Como eles já anunciaram que haverá uma redução da taxa de juros poderá haver evasão de capital. Por isso, acredito que o momento não tenha sido propício'', comenta. Mologni, inclusive, cita a sugestão de aumento do salário mínimo para R$ 350 e a edição da ''MP do Bem'' como medidas adotadas para atingir fins eleitoreiros, assim como a redução da taxa de juros.
Apesar de juros baixos serem um pedido do empresariado, o crescimento provocado pela medida não seria sustentável. ''Se houver saída de capital teríamos que recorrer ao fundo de novo e, agora, não seriam US$ 15 bilhões, mas US$ 40, US$ 50 bilhões'', observa o economista.


