'Pacto pelo emprego' expõe divergências
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de dezembro de 1998
Das agências 
O protesto contra a política econômica do governo, organizado ontem pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), lotou o auditório Teatro Popular do Sesi e empolgou a platéia de mais de 600 pessoas, composta basicamente por empresários. Mas apesar do aparente sucesso dessa primeira manifestação em torno do chamado pacto pela produção e pelo emprego, a ausência de importantes lideranças do sindicalismo e de representantes do universo de grandes empresas instaladas em São Paulo tornou claro que as divergências entre os participantes ainda são fortes demais para que o movimento se alastre.
Aparentemente, nenhum grande empresário brasileiro não ligado à entidade aderiu às idéias da Fiesp desta vez. A indústria automobilística - com problemas muito sérios de mercado - não enviou representante. A não participação do setor foi notada pelo presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Heiguiberto Navarro.
A CUT preferiu não enviar seu presidente, Vicente Paulo da Silva, por divergências internas. A central, que tem 2,5 mil sindicatos filiados no País, de inúmeras categorias, acabou representada por apenas meia dúzia de dirigentes de um único sindicato, o dos Metalúrgicos do ABC (leia mais nesta página).
Fora da Fiesp, em suas bases, sindicalistas protestavam, por meio de manifestos, contra a adesão do ABC. É o caso dos sindicatos de metalúrgicos de Campinas, de São José dos Campos, de Limeira e ainda da Federação Democrática de Metalúrgicos de Minas Gerais, todos cutistas e todos descontentes com esse pacto. Para eles, alguns dirigentes da CUT estão se prestando ao triste papel de massa de manobra dos empresários.
Na Força Sindical, a situação é ainda mais complicada. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, foi ao ato na Fiesp, fez discurso contra a taxa de juros, mas em entrevistas fora do palco deixou claro que a central só acredita na superação da crise por meio de reformas.
O destaque na manifestação foi a participação de políticos de esquerda. O PT compareceu com a maior bancada - 12 deputados, de um total de 37 presentes. Pelo PSDB, o deputado José Aníbal fez uma discreta defesa da política econômica e depois centrou fogo em outro assunto: a agricultura, até então fora da pauta do empresariado.
O manifesto distribuído aos participantes não foi menos polêmico. Tanto assim que as entidades não o assinaram. O sindicalista Pereira explicou que não concordou com os termos do documento, denonimado Mais Produção, Mais Emprego, e por isso recusou-se a subscrevê-lo.
O texto propõe redução imediata da taxa básica de juros para 20% ao ano e manutenção da curva de queda ao longo de 1999. Lembra ainda da necessidade de reforma tributária, sem tocar na reforma da Previdência e da estrutura sindical, nas quais a Força Sindical tem interesse e posições opostas às da CUT.
O presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, enfrenta resistência de empresários já há uma semana. O presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro acusou Piva de irresponsabilidade por julgar que o movimento põe em risco a política econômica do governo. Acusou os empresários paulistas de populismo, e afirmou que a proposta apresentada de redução das taxas de juros poderá agravar a recessão.
Piva reagiu à acusação. Disse que os empresários do Rio certamente então enfrentando as mesmas dificuldades que os paulistas. O presidente da Fiesp conta com a adesão de representantes de outros setores de atividade. Disse que eles só não foram chamados para o ato de ontem porque o tempo era curto e ele temia não ter condições de organizar o movimento adequadamente.
A Fiesp e representantes dos trabalhadores esperam preparar um documento com sugestões alternativas à atual política econômica até meados de janeiro. Até lá deverão ser ouvidos representantes do comércio e do setor de serviços.


