Pacote prevê duas taxas de câmbio
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sexta-feira, 04 de janeiro de 2002
Denise Chrispim Marin 
BrasíliaO novo governo argentino anuncia hoje o fim do regime de conversibilidade, que congelou o valor do peso ao dólar desde 1991. A moeda nacional será desvalorizada, e será adotado um sistema cambial misto. Em princípio, haverá duas taxas de câmbio - uma fixa, para operações de comércio exterior, e outra de livre variação. No futuro, ambas deverão convergir e flutuar. Os detalhes do pacote argentino foram apresentados hoje, de antemão, ao presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo governador da Província de Córdoba, José Manuel de la Sota, que desembarcou em Brasília como enviado especial do presidente Eduardo Duhalde.
Todo o apoio que o Brasil der às medidas que serão anunciadas pelo presidente Duhalde será bem-vindo, afirmou De la Sota, que foi embaixador da Argentina no Brasil de 1990 a 1993. Nosso principal parceiro merece conhecer as medidas antes do anúncio. A posição do Brasil é de solidariedade, completou.
Conforme informou, o governo argentino deverá encaminhar ainda nesta sexta-feira um conjunto de projetos de lei a seu Congresso Nacional, com o objetivo de mudar as atuais regras da política econômica. O principal é o que acaba com a Lei de Conversibilidade. Segundo o governador, deputados e senadores já foram convocados para os trabalhos no fim de semana e deverão aprovar as medidas até segunda-feira.
Este governo é de união, de coalizão de partidos, para enfrentar a grave crise que assola o país. O presidente Duhalde foi eleito com votação quase unânime dos parlamentares, respondeu De la Sota, ao ser questionado sobre os riscos de as medidas virem a ser rejeitadas pelo Congresso argentino.
Depois do seu encontro com FHC, De la Sota esquivou-se de confirmar o grau da desvalorização inicial do peso argentino, que será anunciado amanhã pelo novo ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov. Fontes extra-oficiais da Argentina indicavam ontem que a perda do valor deverá alcançar cerca de 40%. O governador, entretanto, indicou que o pacote montado traz como premissa os objetivos de impedir a retomada do processo hiperinflacionário no país e a quebra do sistema financeiro. Mas deverá exigir sacrifícios da população.
A crise argentina é tão grave que o país não sairá dela sem um sacrifício muito grande, afirmou. O presidente quer que o esforço seja compartilhado por todos os argentinos, mas os que têm mais deverão fazer um esforço maior, completou.
O temor do retorno da inflação galopante, que arrasou a economia do país no fim da década de 80, é a principal razão da criação do regime cambial misto. Desvalorizada logo de início, uma das taxas será mantida fixa em médio prazo - até que os indicadores macroeconômicos apontem a possibilidade de sua flutuação, sem riscos de impactos nos índices inflacionários. A taxa que flutuará de imediato vai reger operações consideradas pelo governo como menos importantes, como a compra de dólares por pessoas físicas para viagens ao exterior.


