Agência Estado

Arquivo FolhaConhecimento de causaO ex-ministro Maílson da Nóbrega: ‘‘Sempre tem uma válvula por onde escapam as pressões’’O pacote de ajuste fiscal anunciado pelo governo em novembro passado não deverá obter a economia de R$ 20 bilhões esperada, porque muitos dos cortes de despesas anunciados não passam de intenções. ‘‘Sempre tem uma válvula por onde escapam as pressões’’, disse o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, lembrando-se das próprias experiências no governo.
Cortes de despesa anunciados no pacote, como a demissão de 33 mil servidores que não eram protegidos pela estabilidade de emprego, acabaram sendo abandonadas. ‘‘Deixar a medida de lado é uma válvula’’, disse o ex-ministro. ‘‘Quando se faz um pacote, na pressa, acabam-se propondo medidas ridículas, como foi o aumento da taxa de embarque de vôos internacionais para US$ 90,00’’, lembrou.
‘‘Este governo está tentando fazer o ajuste, como outros tentaram antes, mas todos acabam esbarrando na rigidez orçamentária’’, comentou Maílson. ‘‘Os analistas já aprenderam que os gastos fixos funcionam como barreiras poderosas aos cortes.’’ Por isso, a despeito do aumento de receitas que vem sendo registrado nos primeiros meses do ano, o ex-ministro acredita que o resultado das contas do governo federal ficará igual ao do ano passado, na melhor das hipóteses, ou um pouco pior.
Ele avalia, porém, que mesmo não atingindo plenamente seus objetivos, o pacote cumpriu sua principal missão: dar um sinal claro de que o governo ajustaria suas contas. No auge da crise financeira internacional, isso era considerado necessário, para o governo poder sustentar a elevação das taxas de juros. ‘‘O pacote foi feito com presteza, num momento delicado e num ano eleitoral’’, lembrou o ex-ministro. ‘‘Por sua atuação diante da crise, o governo brasileiro vem sendo elogiado no mundo inteiro.’’
O efeito momentâneo do pacote, acredita Maílson, foi seu resultado mais importante. ‘‘Agora, com o aumento das despesas, pode haver deterioração de expectativas, mas ela será lenta.’’ Ele acredita que, neste ano, não haverá grandes problemas em não se fazer os cortes de despesas necessários, porque haverá crescimento de receitas - não só como consequência das medidas do pacote, mas também pelo ingresso de receitas das privatizações. ‘‘O governo terá sua segunda grande chance de promover uma reforma de fundo na estrutura de receitas e despesas do País, no próximo mandato’’, acredita. ‘‘Mas não haverá uma terceira chance.’’
A economista Rita Rodrigues, que analisa política fiscal na consultoria de Maílson, a Tendências, considera ‘‘preocupante’’ o aumento de gastos do governo neste ano. ‘‘Se esse crescimento for mantido ao longo dos próximos meses, será muito ruim em termos de expectativas’’, avaliou ela. ‘‘Do ponto de vista do mercado, um corte de 15% sobre o orçamento não significa nada, porque a diferença entre os valores que constam do orçamento e aquilo que é efetivamente gasto é muito grande.’’

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