O pacote fiscal lançado na semana passada pelo governo federal é inócuo e recessivo. E a agricultura é um dos setores mais prejudicados. A afirmação foi feita ontem à Folha pelo professor e economista de Londrina , Ismael Mologni. ‘‘Quiseram fazer um ajuste, mas o problema central do país, que é o câmbio, não foi atacado’’, comentou o professor. Mologni afirma que a valorização cambial acabou anulando o incentivo que o governo deu para os exportadores de commodities, ao retirar o ICMS de 13% dos produtos primários enviados ao exterior.
O economista afirma que o real apresenta uma valorização de 31,32% em relação ao dólar americano. Ele explica que quando o Plano foi lançado em 1994, a política cambial adotada buscou uma paridade entre a moeda nacional e o dólar, na ordem de R$ 1,00 igual a US$ 1,00. O professor observou que para manter a equidade das relações de troca com o exterior, é preciso repassar para a paridade cambial a inflação interna, menos a externa, no caso a dos Estados Unidos.
De 94 até setembro deste ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medido pela Fundação Getúlio Vargas, acumula 72%. Neste mesmo período, a inflação nos Estados Unidos (CIP), acumulou 11%.. Considerando-se a desvalorização da moeda em torno de 18%, e os índices de inflação dos dois países, chega-se à conclusão de que o Real está 31,32% acima do seu valor.
‘‘Isso favorece as importações, mas prejudica demasiadamente as exportações’’, comentou Mologni. O economista explica que cientificamente não se defende a maxivalorização, mas se condena esta valorização, uma vez que ela tira a competitividade do setor produtivo do Brasil. ‘‘Esta sobrevalorização anula os avanços obtidos na produtividade, até porque do outro lado, no caso os EUA, houve ganhos via aumento de produtividade através da tecnologia, superior à brasileira’’, comentou.
Para Mologni, outro problema que o setor produtivo do Brasil enfrenta são as altas taxas de juros, 42% ao ano, adotada pelo governo para ‘‘segurar’’ os investidores internacionais. O professor afirma que não existe atividade no mundo que renda lucros superiores a 20% ao ano. A política cambial e as taxas de juros, na opinião de Mologni, vão levar o País a uma recessão, e prevê que ‘‘em 40 dias os País irá solicitar uma moratória externa’’.
O professor afirmou que outro problema do Brasil é a ida ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo Mologni, o problema maior é que o País recorreu ao fundo não para fazer investimentos, mas sim, para ‘‘tapar buracos’’. ‘‘Vamos amargar uma recessão brutal e com a dominação do dinheiro importado dos países ricos, via FMI’’, disse.
Mologni observou que a entrada no FMI abre uma nova agenda de compromissos desfavoráveis ao Brasil. O professor afirmou que o pedido de socorro mostra a ‘‘perda da competência da equipe econômica no gerenciamento da coisa pública federal’’. O Brasil, segue o professor, também perde em parte a cidadania pela subordinação em função da ajuda financeira ao Brasil e dominação e interferência política nas próximas eleições. ‘‘O grupo dos sete países mais ricos do mundo não quer o surgimento de uma nova potência e vai interferir na escolha do governante do Brasil’’, afirmou.
Se a recessão se confirmar com a redução de 10% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 85 milhões, considerando-se um PIB de R$ 850 milhões, Mologni afirma que no próximo ano, o governo deixará de arrecadar R$ 26,35 bilhões em tributos. ‘‘Praticamente anula os R$ 28 bilhões que o governo pretende economizar com o lançamento do pacote fiscal. Por isso, os ajustes são inócuos’’, comentou.
Mologni afirmou que a equipe econômica deveria promover uma desvalorização com hedge (seguro) cambial. Com esta medida, os juros também poderiam ser baixados sem que se corresse o risco de o País ver os investidores internacionais migrando para outros mercados. ‘‘É que com os juros menores, o risco de uma maxidesvalorização do real seria menor’’, comentou.

mockup