Carmem Murara e
Cláudia Lopes
De Curitiba e Londrina
As construtoras paranaenses receberam muito mal o novo programa de financiamento anunciado ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para aquecer o setor da construção civil no País. A maioria dos construtores avaliou que os R$ 800 milhões liberados são insuficientes e que o financiamento baseado na TR (Taxa Referencial) mais 12% ao ano é muito alto para estimular o construtor a retomar as obras. ‘‘O dinheiro é pouco e caro. Não fará cócegas no setor’’, afirmou o presidente da Comissão da Indústria Imobiliária do Sindicato da Construção Civil (Sinduscon-Paraná), Roberto Luiz Valente.
O programa ‘‘Construgiro’’ foi criado para estimular as construtoras a voltar a construir prédios residenciais, gerando emprego e movimentado um setor que entrou numa inércia desde que houve a elevação das taxas de juros, há quase três anos. A Caixa Econômica Federal vai disponibilizar determinada quantia de dinheiro para cada Estado, o que deverá representar 6% do total para o Paraná. A carteira para o Estado totalizará R$ 40 milhões, que, segundo Valente, será suficiente apenas para construir 80 mil metros quadrados, ou seja, seis prédios.
O Paraná teria demanda para uma injeção de R$ 800 milhões num prazo de seis meses, pois todo o setor está parado. De 1998 para 99 houve uma redução de 19% no lançamento de novos empreendimentos imobiliários. ‘‘A impressão que dá é que o governo federal não quer resolver os problemas que há na construção civil no País. Estas foram medidas pífias’’, desabafou.
Ele admite que a taxa de financiamento proposta é muito mais atrativa em relação aos juros estratosféricos propostos pelos bancos, mas ainda fica além das possibilidades das construtoras. A maioria das pequenas e médias empresas prefere adotar o autofinanciamento, isto é, capta dinheiro com os futuros clientes ou com investidores. Outras preferiram parar até mudar a situação econômica do País.
‘‘O Construgiro não deve ser usado em Londrina já que a maioria das empresas locais não dispõe de grande quantidade de promissórias’’, diz o presidente do Sinduscon em Londrina, Clóvis Coelho. ‘‘É um esforço válido, mas que não surtirá efeito na região’’, previu. Segundo ele, o governo deveria ficar com o imóvel como garantia. ‘‘Do jeito que foi feito, as construtoras ficam com o ônus da cobrança das promissórias. Além disso, ao invés da TR, o indexador deveria ser o INPC ou CUB’’.
Coelho disse que os R$ 800 milhões não representam nada em termos de quantidade de habitações. ‘‘Dá para construir 35 mil casas populares no Brasil ou 1,4 mil unidades em cada Estado. E se dividíssemos pelos seis maiores municípios de um Estado, daria 230 casas em cada um deles’’, calcula.
O Sinduscon tem atualmente 100 empresas associadas, que geram 2,8 mil empregos. ‘‘Hoje, há um estoque de 300 imóveis em Londrina’’, disse Coelho. A situação é muito diferente da vivenciada pelo município em meados da década de 80, quando o Sinduscon tinha 300 associados, que geravam 13 mil empregos diretos, além de um estoque com três mil imóveis.
O diretor da Plaenge Empreendimentos, Roberto Melquiades, disse que a construtora não irá se cadastrar no programa por não ter interesse neste mercado e nem promissórias disponíveis. ‘‘Em Londrina, o programa não vai ter reflexos no setor porque as empresas não têm estas promissórias em mãos. A maioria constrói com financimentos de bancos particulares e sistema de condomínios’’.

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