O pacote de R$ 31,5 bilhões de investimentos no setor de energia elétrica, anunciado ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, não resolve o problema da oferta de eletricidade no ano que vem, mantendo a restrição atual ao crescimento da economia. Se as 21 hidrelétricas e 15 termoelétricas previstas no programa forem concluídas exatamente no prazo, mas as chuvas continuarem em 70% da média histórica, será necessário manter um racionamento de quase 10% do consumo no Sudeste e Centro-Oeste ao longo de 2002. Caso São Pedro ajude e a chuva aumente, o risco cai proporcionalmente.
Mas para evitar depender apenas da ajuda dos céus, que já falhou esse ano e levou o País à crise atual, a saída encontrada pelo governo é comprar 4 mil megawatts (MW) de fontes alternativas de energia como barcaças e caminhões de geração, contêineres ou outros equipamentos de montagem rápida e repassar a conta ao consumidor. O custo dessa energia será bem mais alto que aquele pago na eletricidade produzida por hidrelétricas e o governo já avisou que vai repassar esse gasto extra para as tarifas. Ou seja, o consumidor vai pagar o custo do déficit de energia que não puder ser resolvido com investimentos privados ou estatais. Se o governo conseguir comprar toda a energia, o porcentual de economia forçada cai para 5% e pode ser obtido apenas com medidas de racionalização.
‘‘Não podemos afirmar agora de quanto será esse reajuste. Isso vai depender de quanta energia conseguirmos comprar, do preço obtido nas negociações e das fontes de combustíveis usadas na geração’’, explicou o presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), Pedro Parente.
Na lista das hidrelétricas e termoelétricas incluídas no programa de investimentos até 2003 não há nenhuma obra nova. São todos investimentos que já estão em andamento e serão concluídos até 2003. Além dessas fontes tradicionais, que devem gerar 14,2 mil MW de energia ao fim do período, o governo conta com a importação de 2,8 mil MW, com a geração por pequenas centrais hidrelétricas de 846 MW, com a cogeração de mais 960 MW e o uso de mais 1,050 mil MW de energia eólica para fechar o programa ampliação de oferta de energia. Está prevista ainda a construção de mais 6 mil quilômetros de linhas de transmissão de energia.
Os recursos necessários para esses investimentos serão divididos entre o governo e a iniciativa privada. Pelos cálculos da GCE, R$ 22,2 bilhões serão investidos pelo setor privado, enquanto as estatais responderão por outros 9,3 bilhões. A ampliação das redes de transmissão, que terão o objetivo de interligar as diversas regiões do País, custará R$ 1,1 bilhão e essa despesa terá impacto sobre as metas do ajuste fiscal.

mockup