Rio - A retomada da atividade econômica já está encorajando importantes setores da indústria, do comércio e de serviços a calibrar para cima suas projeções de crescimento para 2004. Nove dos doze setores ouvidos pela reportagem informaram que já revisaram ou estão para ampliar as estimativas.
  É o caso de eletrodomésticos, veículos, papelão ondulado, shoppings, máquinas e equipamentos, aviação, supermercados e eletroeletrônicos. A previsão média saltou de 5,6% para 9,6% – ou seja, uma taxa de crescimento 70% superior à média com que trabalhavam no início do ano.
  O quadro geral é de otimismo, embora não haja sinais de euforia. Depois de entrarem o ano acendendo vela para a economia reagir, e assim recuperarem as perdas de 2003, quando a economia encolheu 0,2%, esses setores contam agora com o reforço da recuperação da demanda interna.
  As exportações continuam dando forte vigor para a economia. Outros setores, como siderurgia, construção civil e cimento guardam cautela e ainda mantém suas expectativas iniciais. ‘‘A trajetória agora é de crescimento, até relativamente forte. Vamos continuar crescendo e o ritmo deve se acomodar um pouco no futuro’’, diz o diretor de macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Levy.
  O economista conta que o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que vai ser divulgado no próximo dia 31 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deverá sair acima do projetado pelo Ipea.
  O Ipea havia estimado uma expansão no segundo semestre deste ano, sobre o mesmo período de 2003, de 3,8%. ‘‘Está com cara de que vai ficar acima de 4%’’, diz Levy. O instituto também está refazendo suas projeções de crescimento do PIB para o ano, de 3,5% para em torno de 4%. Justamente na virada do primeiro para o segundo semestre, setores da economia detectaram um incremento de produção e vendas acima do esperado, o que motivou a correção das projeções.
  ‘‘Tivemos uma recuperação muito forte no primeiro semestre. Já esperávamos uma reação, mas o volume ficou realmente interessante’’, conta o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Paulo Saab.
  A projeção de crescimento da Eletros era de 4% e passou para uma faixa entre 7% e 10%. Mesmo que chegue a 33 milhões de unidades, como previsto agora para 2004, o resultado ficará, ainda, abaixo de 1998, de 35 milhões de unidades.
  Economistas apontam que já houve melhoria na criação de postos de trabalho e início de recuperação da renda do trabalhador, principalmente nos empregos formais, entre 6% e 8%, explica o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida. ‘‘No início do ano houve onda de pessimismo, que agora se dissipou, entre consumidores e empresários’’, diz o economista. Mas os empresários defendem a redução de juros, avanço maior no mercado de trabalho e mais crédito.
  O presidente da Associação Brasileira de Papelão Ondulado (ABPO), Paulo Sérgio Peres, conta que a expansão esperada na produção deste ano era de 6% a 8%, estimativa que passou para entre 13% e 14%.

Exportações - As vendas de máquinas e equipamentos já cresceram 22% no ano e as estimativas de aumento do faturamento em relação a 2003 já chegam a 30%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). ‘‘Estamos sendo surpreendidos pelas exportações’’, diz o presidente da entidade, Newton de Mello.
  Além da exportação direta, o setor vende para as empresas brasileiras que necessitam das máquinas para aumentar a produção destinada ao mercado externo. As vendas para o mercado interno também crescerão entre 14% e 15%, acima dos 10% antes projetados.
  Na Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a estimativa de aumento da produção este ano foi ampliada de 9% para 15%, equivalente a 2,1 milhões de veículos. As exportações motivaram as duas revisões, mas o consumo interno já reage.
Shoppings Na área de serviços, cujo consumo é basicamente doméstico, as projeções também estão sendo elevadas. No transporte aéreo, o tráfego cresceu 11% de janeiro a julho. Varig e TAM, que antes acreditavam num crescimento de 7% para a demanda este ano, já apostam em 10%. ‘‘Quando o nível de negócios aumenta, as pessoas viajam mais’’, diz o vice-presidente da Varig Alberto Fajerman. Para a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), a expansão real para 2004 ficará em torno de 7% – a previsão inicial era de 4%. ‘‘Acho que esta recuperação veio para ficar. Não há medidas demagógicas de crescimento, mas rigor fiscal. Tudo faz crer que (a recuperação) seja crescente’’, acredita o diretor-executivo da Abrasce, Luiz Fernando Pinto Veiga.
  Quitação de dívidas, redução da inadimplência, melhores condições de financiamento, ‘‘apesar dos juros ainda altos’’, favoreceram o consumo, diz executivo. Esse mesmo impulso já começa a chegar à construção civil.

Construção - A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mantém a estimativa de crescimento de 5% para o ano, mas já houve recuperação. Cerca de 45 mil empregos perdidos ano passado foram recuperados ao longo do primeiro semestre.
  Na siderurgia, a produção de aço bruto deverá se expandir em 4%; o consumo interno, 8,9%; e as exportações encolherão 5,7% em volume. Para um crescimento consistente, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco Polo de Mello Lopes, é preciso retirar ‘‘alguns limitadores’’, como a carga tributária. Para ele, é preciso ver, ainda, se é mais uma recuperação cíclica da economia ou uma retomada sustentada da atividade.
  Essa recuperação começou, segundo o Ipea, lentamente, desde meados de 2003, com bons resultados na indústria e no comércio, mas demorou a ser reconhecida porque os resultados do mercado de trabalho permaneciam ruins.

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