Oswaldo Petrin
-A crise que vem por aí atinge em cheio os países de economia emergente - Brasil no meio - e a palavra de ordem é negociar. Negociar dívidas, prazos, taxas. Negociar politicamente. Neste contexto ganha quem conduzir melhor essas gestões. Isto passa pela representação e força política. Vale para todos, para as economias individuais (empresas urbanas, agricultores e prefeituras); vale para negociações entre países e organismos internacionais.
-Sindicatos e associações politicamente fortes terão mais cacife.
A recomendação é de técnicos da FGV, FIPE, IEA e do próprio governo. Mas é também da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em seu Relatório Comércio e Desenvolvimento 1998. A crise mundial, aponta o documento, atingiu duramente as nações emergentes e suas empresas.
-Apesar de, no ano passado, a América Latina ter vivido seus melhores índices de expansão nos últimos 25 anos, o PIB de 1998 deve aumentar apenas 3%. A região, segundo o relatório, foi a mais suscetível à crise asiática e espera-se o aumento dos déficits em conta corrente de vários países, ao mesmo tempo em que ficarão mais expostos à interrupção no fluxo de capitais.
-A América Latina teve no comércio com a Ásia um fator importante de propagação da crise: 10% das exportações da região vão para o mercado asiático. Os exportadores de produtos básicos, aponta a Unctad, saíram perdendo mais com a crise. Entre junho de 1997 e abril de 1998, os preços caíram cerca de 10%, especialmente os de metais e produtos agrícolas. Os países desenvolvidos não foram tão afetados, mas o estudo questiona se, num mercado tão globalizado, os erros de um só desses países não terá um efeito-cascata. Nas estimativas da Unctad, os Estados Unidos poderão ter uma queda de 1,5% no PIB este ano, enquanto o Japão, na melhor das hipóteses, não terá crescimento.
-A entidade alerta que a falta de confiança nos mercados emergentes está fazendo com que os frutos de um duro trabalho no mundo em desenvolvimento, tanto em ativos como em bens, estejam agora esfumando-se. O economista Jan Kreger, consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) e professor da Universidade de Bolonha, lembrou o caso brasileiro: Os R$ 20 bilhões que o Brasil levantou com o aumento dos juros e o pacote fiscal do ano passado já saíram do País. A moratória ou a desvalorização do real, medidas que o governo brasileiro não quer, foram recomendadas por Kreger. Ou uma ou outra será necessária, disse, na apresentação à imprensa brasileira do estudo da Unctad. O relatório será divulgado amanhã (16) em Genebra. O estudo recomenda a suspensão do pagamento do serviço da dívida como uma das formas de defesa contra um ataque especulativo à moeda. (Agência Estado, Eliane Azevedo, ontem).
Soja/crise





