-O varejo das grandes lojas de departamento sempre cobrou juros acima da inflação. E mesmo no Plano Real, praticou o que se poderia chamar de ciranda financeira, só que através das suas fórmulas de crediário. Agora, com os juros declaradamente em alta, não o comércio não faria diferente: está repassando lentamente para o consumidor a alta de juros decretada pelo governo na semana passada, e as vendas a prazo foram fracas no fim-de-semana. Entre as grandes redes de varejo, a Agência Estado está citando Eletro, Extra, Carrefour e Ponto Frio foram as que já repassaram o aumento dos juros.
-Em meio à tanta confusão e desinformação, uma notícia boa para o setor exportador, incluindo aí a soja: o diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antonio Carlos Porto Gonçalves, defendeu que, nos próximos três meses, o governo promova um aumento na minibanda cambial de forma a atingir uma diferença de 15% entre o piso e o teto da cotação do dólar. Atualmente, a variação está em torno de 1%.
-Gonçalves, que preferiu não chamar sua proposta de desvalorização do real, mas de flexibilização do câmbio, afirmou que o recurso de aumentar os juros para conter a fuga de dólares já se esgotou.
-O Brasil não pode equilibrar sua balança de pagamentos via elevação da taxa de juros, porque isso provoca um aumento da dívida interna de tal forma que o déficit público pode chegar a 10% do PIB, advertiu, em entrevista à repórter Eliane Azevedo, da AE. Ele acha que o governo gastou seu último cartucho com o aumento dos juros e tem de, mais adiante, considerar a opção de rever a política cambial - embora considere que o atual momento de crise mundial e pré-eleitoral não é o melhor para praticar a ampliação da banda.
-‘‘Temos de esperar passar o auge da crise’’, apontou. Ele discorda dos economistas que consideram a desvalorização do real um suicídio econômico, temendo a volta da inflação. ‘‘Não acredito nisso e acho que pode ser é um suicídio em termos eleitorais imediatos’’, admitiu. O aumento gradual da minibanda que o governo vem fazendo desde o início do ano, para Gonçalves, não teve efeito. ‘‘O processo está sendo muito lento’’, diagnosticou. ‘‘Por que não fazer o investidor estrangeiro pensar duas vezes antes de sair daqui?’’
-Gonçalves afirmou que o País já vive uma recessão e previu que o desemprego pode chegar a 10% até o final do ano. As taxas de juros definidas pelo governo, calculou, significariam uma sangria anual, se mantidos os atuais patamares, de US$ 160 bilhões só de pagamento de juros. Na Carta do Ibre, publicada na revista Conjuntura Econômica e divulgada ontem, a entidade alerta para as consequências do excesso do fluxo de capitais para os países emergentes, criando situações de déficit público incontrolável.

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