Oswaldo Petrin
-Justamente agora que aumenta o interesse pela busca de crédito no exterior através de resolução do Banco Central conhecida como 63 caipira (ver reportagem acima), o governo adota medidas que podem frustrar mais esta opção de crédito. Seguinte: uma das três medidas anunciadas segunda-feira e divulgadas ontem pela imprensa, trata mais ou menos do seguinte: A partir de agora, os bancos deverão aplicar em títulos públicos 100% dos recursos de seus depósitos à vista. Não há mais obrigatoriedade de conceder empréstimos à agricultura.
-Em outras palavras, a exigibilidade bancária - que é lei -obrigando os bancos a transferirem recursos para a produção, deixou de existir. Em vez disso, os bancos podem desviar os recursos para aplicações em títulos do governo. Tudo isso para alimentar o capital especulativo e evitar a evasão de dólares.
-Para os bancos a operação é uma mamata. É para ganhar muito dinheiro: eles vão captar dinheiro barato no mercado financeiro externo civilizado e emprestar a custo altíssimo em que necessariamente está embutido o risco iminente do crash, ou ataque especulativo. A diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e o preço que eles vendem é muito grande. Eles captam a mais ou menos 9% (5, libor, mais 1 a 2 de spread, mais fleat, igual a 8 a 9%) e emprestam a 19,75%.
-O governo pretende incentivar a renovação de US$ 2 bilhões em operações de 63 caipira que ainda vão vencer.
-Ainda ontem, nesta coluna, o professor Fernando Homem de Mello, da USP, falava sobre o prazo que o governo teria para ajustar o câmbio sem criar impacto à economia. O governo, pelo jeito, encontrou solução mais simples, porém despojada da mesma preocupação. Já que a agricultura (e seus fornecedores: agroindústria, indústrias de tratores e equipamentos) será severamente prejudicada.
-Sobre o assunto, o professor Ismael Mologni, entrevistado ontem por este jornal, observou que além da agricultura, outros investimentos serão prejudicados e deu um exemplo bem concreto. As empresas de telecomunicações privatizadas já não estão obrigadas (após as medidas para conter a fuga de dólares) a fazerem investimentos. São incentivadas a adquirir títulos do governo. E engordar a agiotagem dos bancos.
-Quanto aos investimentos em tecnologia e geração de riquezas, podem ser adiados em nome de um esforço para atrair o capital especulativo. Se o governo tivesse corrigido o câmbio e os juros na hora certa, a economia não estaria tão vulnerável. É visível o retrocesso econômico. E vêm aí um novo período de recessão inibindo investimentos em atividade produtiva.
CMN/café





