-Mesmo sem a interferência do governo federal, o álcool negociado nos postos de combustíveis poderia estar mais barato ao consumidor. As cinco maiores distribuidoras de álcool e derivados de petróleo do País - incluindo a Petrobrás -, detentoras de 90% do mercado, retiveram, indevidamente, cerca de R$ 1,5 bilhão, em 1997, por conta de descontos obtidos junto às usinas produtoras e não repassados ao preço final do produto. A denúncia é da Associação Brasileira dos Produtores de Álcool (Alco) e chegou ontem ao Planalto.
-Por meio de pressão e renegociação de contratos diretos com usinas de álcool, as distribuidoras conseguiram deságios de 25% a 35% nos preços de compra do combustível, mas não repassaram tais vantagens ao varejo, prejudicando os consumidores que poderiam dispor de um produto mais barato.
-As agências de notícias devem divulgar hoje declarações de diretores da Associação Brasileira dos Produtores de Álcool, sobre o assunto. Segundo Pedro Luciano Pena, vice-presidente da Alco, o sistema distribuidor está ‘‘subtraindo’’ R$ 1,5 bilhão do setor produtivo.
-De acordo com a Associação, as distribuidoras combatem a ação do governo, que na semana passada voltou a ditar as normas do mercado de álcool (Medida Provisória 1.670 e decreto 2.635), exatamente porque o cenário atual de ‘‘absoluta ausência de regras mínimas para comercialização do produto é perfeito para se exercer pressão junto às usinas que enfrentam situação financeira difícil a partir da queda no consumo interno de álcool e da própria redução de 35% nos preços internacionais.
-Exemplo da dificuldade do setor é o que ocorre com as destilarias do Paraná. Elas estão há dois meses sem comercializar álcool, deixando de faturar R$ 2,8 bilhões por mês, ou 70 milhões de litros. Com isto, cresce a inadimplência das usinas com fornecedores e com o pagamento de tributos.
-Os dirigentes da Alco alertam, no entanto, que as entidades e produtores responsáveis por 70% da oferta de álcool apoiam o governo, que agora fixará preços e estabelecerá cotas de produção e comercialização.
-A Associação Brasileira dos Produtores de Álcool explica que não é contrária à liberação dos preços, apenas pretende um prazo maior para transição de um mercado controlado para um mercado desregulamentado. Em um ou dois anos, o cenário estará perfeitamente ajustado, sem distorções geradas pela força do poder das grandes distribuidoras. Contribui para isso o fim das importações (somente em 1997 foram adquiridos 1 bilhão de litros de álcool no exterior) e o aumento da mistura de álcool na gasolina de 22% para 24%, decidido pelo governo em maio. Afinal, estão em jogo a sobrevivência de toda uma atividade produtiva e de aproximadamente 1,2 milhão de empregos no campo gerados pelo setor sucroalcooleiro.


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