Oswaldo Petrin
Armazém quase vazio

-Os estoques de alimentos básicos nunca foram tão baixos. O ministro Turra quer rever a ‘‘estratégia’’, mas sabe que isto só pode ocorrer após a safra de verão. Até lá a saída é importar. O governo não disfarça sua preocupação com a baixa produção. Primeiro, porque é ameaça ao Plano Real, dando margem a muita especulação, como mostra ascensão dos preços no varejo. Em segundo lugar, porque isto será utilizado politicamente. Não sem razão, convenhamos. -Por burrice ou cinismo, ao mesmo tempo em que mostra preocupação com os baixos estoques, o governo insiste em manter taxas de juros altas para produzir. O escasso financiamento vai custar caro, com taxas bem acima da inflação. Populista, o governo tem medo de favorecer a produção e ser confundido com ajuda aos proprietários, como se eles não merecessem.
-Os juros: como o governo não teve vontade política ou competência para negociar taxas menores, os juros devem ser como no ano passado, de 9,5% ao ano para médios e grandes produtores e de 6,5% ao ano para os pequenos agricultores. É alto para atividade de risco.
-Turra responsabiliza a falta de equalização: explica que, se o governo mexer na taxa de juros, o volume total de recursos diminui, já que o Tesouro Nacional precisa pagar a diferença entre as taxas de mercado e as de empréstimo ao produtor rural. Mas o pagamento da diferença já foi feito em anos anteriores; com toda resistência do BC o diferencial foi equalizado.
-Enquanto isso, o Brasil está ocupando posição de destaque no ‘‘ranking’’ mundial dos maiores importadores de alimentos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Na safra 1997/98, o País que tem a maior área agricultável do mundo ocupou o posto de segundo maior importador mundial de trigo, terceiro maior importador mundial de algodão e terceiro maior comprador de arroz beneficiado do mundo.
-Os dados do USDA revelam que o Egito ocupou o posto de maior importador mundial de trigo na safra, com 7,3 milhões de toneladas, seguido do Brasil e Japão, com 6,2 milhões de toneladas. O maior importador de algodão foi a China, com 392 mil toneladas, seguida da Indonésia, com 370 mil toneladas, e do Brasil, com 348 mil toneladas, empatado com a Itália.
-O quadro das importações de arroz beneficiado demonstra que a Indonésia foi o maior importador do mundo, com 4 milhões de toneladas, seguida das Filipinas, com 1,5 milhão de toneladas, e do Brasil, com 1,2 milhão de toneladas. Pelo menos no caso do trigo, há uma disposição do governo de reverter esse quadro de dependência, garantiu Turra, ontem à Agência Estado. ‘‘Não temos ilusão de ser auto-suficientes, mas pretendemos aumentar a produção em 2,5 milhões de toneladas nos próximos três anos’’, afirmou. Mas se o governo não acenar rapidamente com medidas concretas, vai ser difícil reverter o pessimismo no campo.Sem poder
Como nos velhos tempos: o pleito do Ministério da Agricultura é para a redução das taxas. Mas a área econômica do governo resiste à idéia de mexer nas taxas cobradas nos financiamentos rurais.
5% é ideal
O chefe do departamento técnico da CNA, Antônio Donizeti Beraldo, faz as contas e afirma que, para guardar proporcionalidade com a safra passada, a taxa de juros no crédito rural este ano deveria ficar em cerca de 5% ao ano.
Compara
No ano passado, tivemos uma taxa de 9,5% para uma inflação de 7%, o que significa uma taxa real de 2,3% ao ano. Agora, com uma inflação projetada de 3,5%, manter os juros em 9,5% ao ano significa uma taxa real de 5,8% ao ano.
O Plano
O novo plano de safra deverá ser aprovado em reunião extraordinária do Conselho Monetário (CMN) dia 17/6. Pela primeira o CMN fará uma reunião voltada exclusivamente para a agricultura. Mas que ninguém se entusiasme.
Novidades
O CMN deve aprovar: 1) alongamento do custeio para 60 dias após a colheita, 2) o produtor pode fazer pré-custeio sem especificar a cultura, 3) Os limites para a avicultura passam de R$ 6 mil para R$ 10 mil, e da suinocultura de R$ 6 mil para R$ 15 mil.

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