-As pessoas não estão se endividando. Ou, pelo menos, estão entrando menos em crediários. O Banco Central divulgou ontem o perfil da demanda de crédito direto ao consumidor (leia-se pessoa física) e aponta queda de 40% nos últimos 12 meses nesta modalidade de crédito. Cai o volume de crédito para a pessoa física. Há pouca disponibilidade de crédito, mas o número de tomadores também é menor. Em volume são cifras altas. Os empréstimos caem de R$ 31.629 bilhões para algo em torno de R$ 29,5 bilhões no período.
-Repercussão da crise asiática à parte, isto explica, em termos, a retração acentuada no consumo, embutida numa mudança de hábito bem mais ampla, caracterizada por: a) aumento do nível de exigência com relação à qualidade e direitos, b) um novo cliente, despojado dos ímpetos das compras, c) consumidor menos deslumbrado com o marketing - de quem, aliás, se exige, exatamente por isto, mais criatividade para propor vantagens reais. A mudança que ocorre no consumo, em praticamente todas as áreas, é fantástica. Há uma nova postura do consumidor sustentada pela estabilidade da economia em que as variações dos preços ficam mais claras.
-Mas não há como negar que a disponibilidade do crédito permeia essas nuances sutis do mercado e esta relação com o consumidor. ‘‘Ao cavalo comedor, cabresto curto’’ - o mesmo que juros altos. Nessas regras, os gestores da economia brasileira se dão bem, recorrendo sempre ao instrumento de política monetária (no caso, juros altos, arrocho nos prazos, etc.) para conter o consumo. É que um projeto de geração de emprego exigiria mais. E uma política cambial também. Por falar nisso, o desemprego também ajuda a justificar a redução na demanda de crédito, apontada ontem pelo Banco Central.
-Dias atrás, outra estatística, da Associação Comercial de São Paulo, apontava recuo do consumidor em relação ao crediário das lojas. Para os especialistas, esta redução na tomada de crédito também pode significar o aumento da inadimplência.
-Sobre desemprego, ainda ontem o IBGE divulgou pesquisa mensal apontando queda no nível de emprego no setor industrial (cerca de 8%). Embora o diagnóstico seja paulista, a recessão é macroeconômica e tem representação nacional. Tanto que houve redução do emprego em todas as cinco áreas pesquisadas. A pesquisa aponta janeiro como o pior mês e o sétimo mês consecutivo de redução do número de vagas na indústria brasileira.
-Se o desemprego é indicador de recessão, pode-se inferir que a indústria alimentícia é a que está em pior situação, liderando a dispensa de mão-de-obra (no período), entre 19 áreas pesquisas. A entrada de produtos estrangeiros - de melhor qualidade e menor preço - fragilizou a agroindústria nacional, carro-chefe da indústria alimentícia.Gallus

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