Oswaldo Petrin
-Enquanto no setor de alimentos, a ABIA dispõe de dados indicando que o deslocamento de consumo não parou e continua transferindo para as massas e carnes prontas as preferências que antes recaiam sobre o trivial arroz, feijão e bife, no setor de bens duráveis, acontece o contrário: o comportamento tende pôr o pé no freio. Na estabilidade econômica, o trivial da classe média cedeu espaço para um cardápio mais diversificado. A interpretação não deixa dúvida de que o orçamento familiar está destinando uma fatia maior para o item alimentação.
-Por pé no freio entende-se um esfriamento nas vendas de utilidades domésticas e eletrônicos em geral, segundo interpretação do setor. As poucas exceções são a geladeira e o televisor, por conta de dois fatores: o futebol da Copa do mundo e o lançamento de sedutores modelos com telas grandes. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, divulgada ontem, cerca de 52% de dois mil consumidores entrevistados pretendem manter inalterado seu nível de compras nos próximos seis meses, enquanto 25% disseram que irão comprar menos e apenas 19% que irão comprar mais. Em outubro, esses percentuais eram respectivamente de 56%, 23% e 20%. Os dados referentes ao grau de endividamento caíram de 23% em outubro para 21% neste mês.
-Consumir, por definição, é o exercício da aplicação da riqueza na satisfação das necessidades do homem. Necessidade e satisfação não são finitas, mas podem ser administradas. A riqueza, porque estimula desejos, acaba determinando as dimensões da necessidade e sua satisfação plena ou não. Portanto, não é difícil aceitar a idéia de que a escassez de dinheiro leva, realmente, a um redutor no consumo. Esta escassez, aliás, é de fácil constatação, ela se expressa, por exemplo, no aperto da classe trabalhadora-consumidora, que neste momento negocia, inusitada redução de salários; na falta de absorção de mão-de-obra; na falta de liquidez das empresas, enfim, numa ampla gama de indicadores que se manifestam todos os dias e se alimentam de taxas de juros ou outros instrumentos de política monetária inibidores do consumo para evitar o consumismo.
-O ideal deveria ser o contrário: que os estímulos ao consumo implementassem os meios de produção e que se estabelecesse o exercício pleno da aplicação (e distribuição) da riqueza para satisfação das necessidades que, a esta altura, teriam de ser criadas e não sufocadas. O contrário disto, como infelizmente ocorre, a julgar pela pesquisa da CNI, é a negação do próprio capitalismo.
-Um país com a taxa de crescimento demográfico do Brasil, com uma colossal mão-de-obra disponível e com crise de desemprego prenunciando convulsão social, tem mais é que abrir mercado e aumentar a produção. Enfim, potencializar seu consumo, em vez de temê-lo e sufocá-lo. No entanto, com os juros atuais - que são o principal dos gargalos - o que se faz é reprimir a demanda. O Real adormece na fase transitória, pode ser atropelado.Frango





