OSWALDO PETRIN
Empregos no campo
A agricultura, em 2004, empregou mais, exportou mais e a comida ficou mais barata. Apesar das críticas que o presidente do Incra, Rolf Hackbart, fez ao agronegócio (na verdade ele queria criticar os produtores), o setor rural bateu recorde na criação de empregos, cumprindo com sua função social de gerar riquezas. Gerar e distribuir.
Nenhum setor é tão distribuidor de rendas, ao longo de respectiva cadeia produtiva. A agropecuária oferece empregos diretos, na zona rural, e indiretos na cidade. E dá respostas rápidas. Como a construção civil, aliás.
Entre janeiro e outubro de 2004, o campo gerou quase meio milhão de empregos formais, com carteira assinada. Ao divulgar, esta semana, um relatório sobre o desempenho da agricultura, a CNA projetou um acréscimo entre 90 mil e 100 mil novos empregos referemtes meses de novembro e dezembro.
Detalhe: o ano de 2004 foi marcado pela perda de renda do setor primário. Houve forte queda nos preços agrícolas - que ainda persiste - e, paradoxalmente, um aumento brutal dos fatores de produção puxados em partes pelo aumento das preços (tarifas públicas) adminsitrados pelo governo.
A perda de renda no campo transparece no chamado PIB agropecuário que fecha o ano ''encolhido'' no dizer dos técnicos. Seu crescimento em 2004 foi de 3%, que não é nada, se comparado ao crescimento do PIB de 2003: 16%. Neste caso, cresceu menos que o PIB de toda a economia, ao contrário do que vinha ocorrendo nos últimos anos. Mais que um dado novo - e de certa forma desaminador - isto reflete a perda de renda na agropecuária.
Um dos problemas enfrentados pelo campo em 2004 foi a alta dos preços dos insumos, impulsionada, em parte, pelo aumento do petróleo, autorizado pelo governo. Entre janeiro e julho os fertilizantes ficaram 17% mais caros. Apenas para comparar: o IGP-DI (Índice Geral de preços - Disponibilidade Interna) subiu 8%.
O IGP-DI é o parâmetro ideal para aferir esses tipo de informação técnica. Outros indicadores apontarão grande desigualdade entre os índices de inflação e os do aumento de custos agrícolas. Se a comparação for feita com os preços recebidos pelos produtores a desproporção será ainda maior.
LEITURA DINÂMICA
- A Austrália divulgou embargo a carne brasileira, mas o Banco do Brasil (setor exportador) e o Ministério da Agricultura não registram volumes de vendas para aquele país, que é fortíssimo em pecuária.
- Também a Associação dos Exportadores de Carne estranhou a informação divulgada na quarta-feira.
- Já o presidente Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte, Antenor Nogueira, classificou como ''ridículo'' o rumor publicado na imprensa australiana (e brasileira).
- Na verdade os australianos não aceitam perder espaço para o Brasil no mercado mundial.
- Então ficam inventando.
DROPS
Força na exportação
Até o último dia 26, a balança comercial brasileira registra um superávit de US$ 33,081 bilhões, resultado de exportações no valor de U$ 94,898 bilhões e importações de US$ 61,817 bilhões. A previsão do governo era bem próxima: fechar o ano com um saldo comercial de US$ 32 bilhões, com exportações de US$ 94 bilhões e importações de US$ 62 bilhões.
O grande saldo é puxado pelo bom volume das exportações do agronegócio.
Contrato de trabalho
O campo poderia gerar mais emprego, não fosse a camisa de força da legislação trabalhista. A expectativa para 2005 é que o Congresso abra a discussão do projeto que trata da formalização do contrato de curta duração no trabalho rural. As axigências dificultam a criação de postos de trabalho.
Novas obrigações
Em 2005 entra em vigor a Norma Regulamentadora Rural 31, que trata de critérios de segurança e saúde no trabalho rural. A regra inclui uma série de novas obrigações ao empregador rural. Mas são positivas e representam um avanço porque tratam do bem-estar do trabalhador.
Comida mais barata
O preço da alimentação, conforme dados do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe (IPC-Fipe) caiu 1,78%, entre janeiro e novembro, em termos reais. Isto ocorreu com relação à proteína vegetal e as carnes. O peso específico do grupo alimentos na composição dos índices de inflação sempre foi o mais baixo em relação a outros itens.
Liquidez em 2005
O relatório da CNA prevê queda de liquidez da soja em 2005. Os preços se comportarão de maneira geral mais baixos por conta da safra norte-americana e safras brasileira e argentina. Mas empresas de consultoria acham que é muito cedo para prever um ano desfavorável para o mercado da soja. Talvez não seja um ano tão bom.
Soja, sempre soja
O cenário pode mudar porque a soja é um alimento de forte demanda mundial. Para reversão de tendência basta a China resolver antecipar contratos ou elevar o volume de compras. No caso do Brasil, a receita certamente será afetada (deve cair de US$ 10 bilhões para US$ 9 bilhões), mas a comercialização no âmbio do produtor deixará bom lucro tomando por base um preço de US$ 10/saca.
Mas vai haver queda de renda para a maioria dos produtos, inclusive a soja. A gerência terá um papel importante.





