OSWALDO PETRIN
Um 2005 sem mercado
Enquanto o IBGE, bem inserido na onda otimista do governo, está prevendo nova safra recorde (o plantio ainda não terminou; a safra tem tudo pela frente, mas o IBGE já está vendo os armazéns abarrotados), a realidade do campo mostra outra face.
Tudo será abundância, segundo as previsões oficiais. Antes assim. Mas Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que representa os produtores aponta várias preocupações.
Alguas delas estão bem expostas: são a) o aumento dos estoques mundiais de produtos agrícolas, b) o pequeno crescimento da economia interna e c) a elevação dos preços dos insumos.
Esses fatores levaram o presidente da CNA, Antônio Ernesto de Salvo, a recomendar cautela aos agricultores em 2005. ''Vamos fazer contas, olhar com cuidado. Não vamos parar de crescer nem parar de produzir. Vamos até aumentar (a produção), mas vamos fazer isso com muito cuidado'', comentou, ao falar sobre as perspectivas do agronegócio para o ano que vem.
A CNA, não é a única a alertar os produtores e a sociedade (e formadores de opinião) que a situação do campo não está fácil. A Faep, antes mesmo da largada da safra, já tinha um diagnóstico de que a comercialização não será fácil daqui para frente.
E muita gente confunde o bom desempenho do agronegócio com a verdade dos produtores da matéria-prima, que movimenta a indústria. Uma das pontas do agronegócio, a lavoura, é uma transferidora de renda para as indústrias; a lavoura mesmo não está com essa liquidez toda. Muitos produtores estão atolados em dívidas. Outros têm uma margem de ganho apenas razoável.
Diagnóstico da CNA, divulgado ontem: ''É possível que o setor passe, no próximo ano, por uma nova crise de endividamento. Se o Brasil colher uma safra recorde e se o cenário externo de preços continuar negativo, a capacidade de pagamento estará comprometida.
Mais: a queda de renda do setor agropecuário em 2005 pode comprometer a manutenção do ritmo crescente de criação de novos empregos no campo, avaliou de Salvo. A abertura de mercados, o que ampliaria as exportações agrícolas, poderia reverter o cenário. Em 2004, o setor rural bateu recordes na criação de empregos, como vem ocorrendo nos últimos cinco anos, informou a CNA.
LEITURA DINÂMICA
- O que diz o IBGE:
- O clima será o único contratempo capaz de reverter a safra recorde de 134 milhões prevista para 2005, um volume 12,5% superior a safra 2004 (119 milhões de t), segundo estimativa divulgada pelo IBGE.
- Caso seja confirmado, o volume será um recorde histórico e vai marcar mais uma vez o crescimento da participação da soja na produção agrícola do País.
- O chefe do departamento de agropecuária do IBGE, Carlos Alberto Lauria, disse que somente o clima poderá modificar a projeção do instituto nas próximas estimativas.
- Ainda que seja um fator incontrolável, o tempo tem tal efeito sobre a safra que, no ano passado, derrubou uma estimativa inicial de 133 milhões de t, que acabou sendo bem menor do que o projetado.
DROPS
Empregos
Equando o presidente do Incra xinga os produtores (ele confunde agronegócio com produção agrícola)...
Entre janeiro e outubro deste ano, foram criados 249.340 empregos formais no campo. Em igual período de 2003, foram criados 191 mil empregos. A expectativa é de que o saldo (contratações menos demissões) ao final de dezembro fique entre 90 mil e 110 mil empregos, frente as 58 mil vagas de trabalho no ano passado, o que representa crescimento de pelo menos 64%.
Sazonalidade
Nos últimos meses do ano, período em que as lavouras estão se desenvolvendo, é comum a dispensa de funcionários. Em janeiro, com a proximidade do período de colheita de importantes culturas, como soja e milho, as contratações aumentam.
Recuo de preços
O recuo dos preços dos principais produtos agrícolas no mercado internacional e a previsão de boa produção nos Estados Unidos levaram o presidente da CNA a prever crescimento de apenas 2,2% no Produto Interno Bruto (PIB) da atividade primária da agropecuária em 2005. O porcentual está abaixo do registrado em 2004 - crescimento de 3%.
Aumento do adubo
Em relação aos insumos, um dos vilões da agricultura neste ano, o presidente da CNA disse à Agência Estado, onte que entre janeiro e julho os fertilizantes ficaram 17% mais caros, em média, enquanto o Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) subiu 8%. (Fontes: CNA, Agência Estado e Folhapress).
Familiar também
A agricultura familiar brasileira correspondeu a 10,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2003, movimentando R$ 156,6 bilhões, revelou estudo divulgado ontem pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Em 2002, os agricultores familiares representavam 9,2% do PIB. Segundo o levantamento, o PIB do setor cresceu R$ 13,4 bilhões em 2003, 9,3% a mais que em 2002.





