Inflação manipulada

Primeiro foram os comerciantes e as lojas de departamento, agora são os políicos que colocam em dúvida os índices de inflação. O Banco Central trabalha com médias mas quem vai aos supermercados comprar produtos de primeira necessidade sentem uma inflação bem maior que os índices ''trabalhados'' pelos órgãos do governo.
O deputado federal e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto (PP-SP) afirmou ontem à Agência Estado que ''o Banco Central deveria rever a meta de inflação com cuidado, para um nível factível''. Para ele, os 5,1% apontados em setembro pelo BC como novo objetivo a ser perseguido para 2005 não é realista. ''A nova meta deveria ser bem estudada. Não sei qual deveria ser o patamar mais adequado'', comentou. ''Depois de seis anos desse regime, vimos que a inflação anual nesse período ficou oscilando ao redor de 7,5%. Um sistema de metas eficiente coordena de fato as expectativas dos agentes da economia sobre este tema.''
Delfim afirmou que o BC fixa a meta de inflação de forma ''obscura'' e não deixa claro quais são os critérios utilizados para defender o objetivo de 4,5% para 2005, que, na prática, foi revisto para 5,1% no mês passado. A medida oficial da taxa é feita pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ''Há um bando de falcões empoleirados no BC. São cruzados em busca do Santo Graal dos 5,1%'', ironizou.
O ex-ministro criticou o aumento de juros do Copom realizado na semana passada, que elevou a taxa anual de 16,25% para 16,75% ao ano. ''O BC acredita que o crescimento do País não pode passar de 3,5%. Como a economia está rodando a 4,8%, ele quer reduzir o ritmo da expansão. E para isso adotou um choque de terrorismo'', comentou.


LEITURA DINÂMICA
- Pronunciamento do ministro da Agricultura, ontem, enviado pela Assessoria, possivelmente em resposta às críticas feitas pelo governador do Paraná:

- Tenho a maior disposição para discutir qualquer assunto que conheça com qualquer pessoa, desde que a discussão se dê no terreno das idéias e com base em argumentos racionais, técnicos ou científicos.

- Também reconheço que homens públicos com responsabilidades administrativas devem tomar medidas e decisões que julguem as mais adequadas para os seus governados, e, de preferência, discutindo-as com eles.

- Mas quando a discussão resvala para o terreno da ofensa pessoal, procuro desqualificá-la para evitar a polêmica emocional, inútil e sem sentido.

- Mesmo assim, em respeito à opinião pública, gostaria de lembrar que a não divulgação dos nomes dos agricultores que assinaram o Termo de Compromisso, Responsabilidade e Ajustamento de Conduta (TRAC), assumindo o plantio de soja transgênica, respeita uma determinação legal.

- A MP nº 223, publicada no Diário Oficial da União, em 15 de outubro, reafirma, em seu parágrafo único do artigo terceiro, um dispositivo já previsto na Lei nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003, que determina que o TRAC é de ''uso exclusivo do agricultor e dos órgãos e entidades da administração pública federal''.

- Em função disso, a lista dos agricultores que o assinaram só pode ser fornecida aos entes públicos previstos em lei. Além do que, como existia soja transgênica plantada em território paranaense, o Estado não pôde ser declarado ''livre de transgênicos''.

DROPS
Crea-PR/multa
Quem achar que a indústria de multas é privilégio dos setores de trânsito das prefeituras, está enganado. O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado do Paraná (Crea-PR) está multando agricultores cujas lavouras não sejam acompanhadas por um técnico.

Especialista em camomila?
O produtor rural de Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), José Odair Batista, plantou dois alqueires de camomila no ano passado e depois foi surpreendido com uma multa de R$ 522,50 do Crea-PR por não ter um engenheiro agronômo acompanhando o cultivo. ''Seria difícil encontrar um técnico nesta área'', pensou o produtor.

Surpresa
''Sempre plantei camomila e milho e nunca tive problema. No ano passado, eles alegaram que a camomila (uma cultura que nem se pode usar agrotóxico porque é uma erva sensível e usada para fazer chá) tinha que ter acompanhamento de um técnico especializado'', contou o agricultor.

É proibido produzir
Do jeito que as coisas estão ficando difíceis para a agricultura, qualquer dia vão decretar a proibição geral e irrestrita à produção. Impostos, falta de infra-estrutura, falta de segurança, ameaça de invasões...Ah, ainda tem, também, a legislação trabalhista que - como todos sabem - pune quem dá emprego.

E agora...
Agora vem o Crea aplicando multas para quem não tem um engenheiro agrônomo na propriedade. Deve ter seus motivos. Mas por que não faz uma campanha de esclarecimento, dando prazo para os produtores se organizarem. Por que não defende uma política de assistêcia técnica mais ampla?

Ministério Público
Veja na página 7 do primeiro caderno: Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública contra o Crea-PR, alegando que o conselho está multando irregularmente os produtores rurais do Estado que não têm auxílio técnico de um engenheiro agrônomo em suas propriedades.

Soja para a China
Começa hoje um diálogo entre brasileiros e chineses principalmente sobre negociações nos setores de soja, óleo de soja. Essa discussão de técnicos especializados tem como objetivo preparar acordos para a visita do presidente chinês ao Brasil, no próximo mês.

Evitar problemas
Na visão de um desses técnicos, esse diálogo é importante para evitar surpresas no meio das negociações, como as ocorridas em abril com a soja. As negociações devem ser transparentes e à luz das normas da OMC, da qual a China também é membro, afirma.

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