OSWALDO PETRIN
O 'vazio legal' da soja
É indisfarçável a queda de braços entre os ministérios da Agricultura, de Roberto Rodrigues, e do Meio Ambiente, da ministra Marina Silva, na questão dos transgênicos. Na segunda-feira, o ministro Rodrigues teria dado como certa a assinatura, pelo Presidente da República, de medida provisória (MP) liberando a soja trangênicas. Ao mesmo tempo, Marina negava.
Marina Silva chegou a garantir que Lula ''não vai assinar medida provisória'' Ao sair de audiência com o presidente, na segunda, a ministra relatou que Lula vai esperar a avaliação do Congresso sobre o projeto da Biossegurança.
Estava certa. No dia seguinte, o ministro Roberto Rodrigues já não afirmava que haveria MP, apenas se declarava ''confiante'' de que não haverá um vazio legal para a produção de soja transgênica na safra 2004/05.
Pelo jeito, o Planalto vai espear o tempo passar: o Senado marcou para o dia 5 a votação do projeto de lei de Biossegurança. Caso a votação não ocorra, o governo deverá editar nova MP. ''Na semana que vem haverá uma solução para o plantio de soja transgênica seja ela qual for.
O Brasil é um dos poucos países que ainda resistem à soja transgênica. No mundo inteiro, quem não produz transgênicos, consome transgênicos. Ou seja o mundo está dividido entre os que produzem e os que consomem produtos geneticamente modificados. Mas eles estão presentes nos dois lados.
LEITURA DINÂMICA
- Sobre a indecisão dos técnicos brasileiros diante do impasse dos transgênicos, o produtor paranaense e plantador de soja em Mato Grosso, César P.Barreto, afirma:
- Eles têm medo de se indispor contra os colegas ambientalistas. Entre apoiar seu ministro (da Agricultura) e ficar com os radicais festivos, do outro lado do governo, eles preferem os colegas.
- Mas sabem que a tecnologia é implacável e um dia vai se implantar. É questão de tempo.
- Diz mais: Nós produtores não queremos plantar transgênicos porque gostamos; é que o mercado exige, os novos tempos exigem. É a competição.
- O resto é discurso.
DROPS
Dois dias de alta
Dois dias de alta na Bolsa de Chicago, ainda assim, os produtores estão retendo a soja no Brasil. Têm razão, mas perdem do mesmo jeito. Têm razão porque depois de o preço chegar à altura em que chegou - US$ 10 em maio e junho - fica difícil fechar no atual patamar. É só acompanhar as cotações diárias. Mas, convenhamos, passou da hora de vender. O pessoal achou que não preço não ia parar de subir, por acaso?
Reação demora
O mercado de commodities é especulativo mas tem alguma lógica. No momento a lógica que dá o ritmo do mercado é a boa produção nos Estados Unidos. Ou, melhor dizendo: o bom desempenho da safra deles, ao contrário do ano passado. Altas e baixas são efêmeras. O parâmetro do mercado é o aumento da oferta.
Cuidado:
É bom ter cuidado com surpresas na temporada de comercialização da safra nacional: uma grande multinacional informou aos clientes que o aumento da safra norte-americana pode se bem maior em relação ao que está sendo divulgado oficialmente.
Estatísticas confirmam
A comercialização da soja está parada há semanas, o que gera preocupação no setor. De acordo com a consultoria Céleres, 77% das 51 milhões de toneladas colhidas no último verão foram vendidas até o momento, o que gera um volume ainda não comercializado em torno de 11,5 milhões de t.
Paraná e RS
Na mesma data do ano passado, 87% da safra tinha sido vendida, e a média de cinco anos para o período é de 95%. A consultoria estima que Paraná e Rio Grande do Sul ainda mantenham 6 milhões de toneladas de soja não comercializada.
Estoques
Os dados da Céleres foram divulgados ontem pela Agência Estado, repórter João Baumer. E mais: as indústrias tinham em estoque 5,7 milhões de toneladas do grão até 31 de agosto, conforme estatística divulgada na semana passada pela Abiove. O volume armazenado não deve ter sofrido grande redução, considerando sucessivos anúncios de suspensão de operações em plantas industriais em todo o País, desde meados de agosto.
Pé no freio
O processamento tem sido suspenso por duas razões. De um lado, a retração do produtor em vender sua mercadoria deixa a indústria desabastecida de matéria-prima. De outro, as indústrias operam com margens negativas, não conseguem cobrir o custo da matéria-prima na venda dos produtos finais (óleo e farelo).
Poucos antecipam
O quadro piora quando se constata que a comercialização antecipada da safra 2004/05 também está paralisada. Segundo a Céleres, 9% da produção esperada no próximo verão tinha sido vendidos até sexta-feira (24), contra 39% na mesma data do ano passado e 26 % na média de cinco anos para o período.
Tradings cautelosas
As vendas antecipadas não deslancham porque o produtor evita vender a safra nova neste período de preços mais baixos e alta volatilidade no mercado de futuros da Bolsa de Chicago, antes da definição da safra norte-americana.
Tradings adotam atitude de cautela quanto à safra nova.
Código Civil
Alguns produtores recorreram ao Código Civil este ano para não entregar soja aos compradores pelos preços acertados em contratos de venda antecipada no ano passado. Isto porque os preços do mercado físico no momento da execução do contrato era superior ao negociado antecipadamente. Para a Abiove é uma situação de grande desconforto porque o contrato é rompido unilateralmente.





