-A semana que termina foi de tiroteios de diferentes calibres, conforme a posição de cada agente econômico. Todos, porém, foram afetados. Mal refeitos do impacto inicial, os setores calculam como assimilar as mudanças, elogiadas e criticadas na sua forma, porém necessárias nos seus objetivos. Necessárias porque pegou o governo no contrapé. Pelo menos remete a gestão FHC em direção às reformas, até agora tímidas, revelando um governo apenas fraco.
-Cada um contabiliza as perdas. Maiores que os ganhos, principalmente para a sociedade, vilipendiada. O comércio, por exemplo, tenta adiar as compras do Natal e obriga a indústria a carregar estoques. O viajante fecha o talão de pedidos e comenta no café da esquina: o varejo é burro e vai morrer de arrependimento ao descobrir que o consumidor não abre mão de tudo que se relaciona ao Natal. Mas a posição do varejo não é de caráter defensivo; é de represália.
-Em São Paulo alguns lojistas estão decididos a não adquirir mercadorias para o final do ano, pois os estoques são suficientes para vender até dezembro. Quem não se preparar para o consumo de sempre, terá o ano inteiro pra se arrepender. As revendas de carros novos passaram a semana ‘‘a seco’’. Consumidor havia se acostumado com taxas de juros quase civilizadas. No imobiliário, a espera é para escolher o índice mais discreto. Induscom promete ‘‘pender para o que for melhor para alavancar as vendas’’. Ilusão, os índices aferidores prometem homogeneidade. Não se trata de descontrole inflacionário, gente. Trata-se de recessão.
-No setor primário, o aumento do preço do óleo diesel deve representar custos de R$ 200 milhões: a alta pegou o setor bem na época do plantio. Entre as medidas do governo, a elevação da Tarifa Externa Comum tem pouca influência, já que o Mercosul, de onde vem 70% das importações agrícolas brasileiras, continua com tarifas zeradas. Já a adoção do sistema de valoração aduaneira tem efeito positivo. O sistema consiste na aplicação do Imposto de Importação sobre os preços internacionais e não sobre o valor declarado na guia. Para a CNA, a extensão dos ACCs aos fabricantes de insumos para exportar permitirá aos produtores de matérias-primas agrícolas, como laranja, soja, café e fumo, o acesso a crédito a juro externo (8% ao ano).
-Na avaliação, mais comedida, há consenso de que o pacote fiscal ‘‘socializa as perdas’’, mas dilui muito o sacrifício do governo que fica timidamente reduzindo gastos de baixo-impacto. Quase no nível da economia do cafezinho e do papel higiênico. Quem diz isto não está totalmente errado. Ontem mesmo o governo publicou no ‘‘Diário Oficial’’ decreto que proíbe os órgãos de pedirem crédito adicional para custear benefícios com planos de saúde de servidores públicos. O pacote do governo e o projeto orçamentário deste ano limitaram em R$ 24 mensais por funcionário os gastos dos órgãos com planos de saúde. Coisa miúda. Tem crédito

mockup