-Cada agente econômico está internalizando o pacote como melhor lhe convém. Menos o varejo que acordou apostando numa chance para remarcar mas esbarrou no único ponto unânime das análises: o ajuste é mais do que recessivo. O governo tratou de conferir esta premissa ao pacote como ponto estratégico. Para configurá-lo assim aceitou até o prejuízo eleitoral, ao contrário do que ocorreu no crepúsculo do Plano Cruzado.
-Se antes era a âncora cambial o ponto frágil, agora são todos, inclusive o consumo no segmento de bens. E a demanda reprimida agora vai continuar entalada. Todo sacrifício para segurar o investimento especulativo. As medidas estão certas, o que não está correto é esperar a água bater nas nádegas para se mexer. Ontem, enquanto Pedro Malan (elementar demais na comunicação) comparava a gastança do Estado deficitário à economia doméstica - ‘‘não se pode gastar mais do que se arrecada’’- alguém perguntou no mesmo padrão didático para não dizer simplista: Por que a equipe econômica não enxergou isto antes?
-Ao contrário dos anúncios anteriores, a equipe econômica não precisou atiçar a ira do consumidor vigilante para segurar preços. Porque o consumo ficou mais debilitado a partir de ontem.
-O plano, este artefato explosivo programado para as eleições, apesar de embrionário já tem alguns mitos que os analistas estão elegendo. Por exemplo: a agricultura será salva pelo incentivo à exportação e restrições às importações. Verdadeiro ou falso? Falso. Em primeiro lugar, no caso das exportações o governo acena com as operações de Adiantamentos de Contrato de Câmbio (ACC), um instrumento que permite que exportadores se beneficiem de linhas de créditos tomadas no exterior, lastreadas pelo BC a juros internacionais de 6% a 8%. Ao fazer um ACC, o exportador recebe do banco um adiantamento do valor da venda a ser feita ao exterior, descontados os juros, mas as taxas levadas em conta são as internacionais, não as internas. Não é invenção concebida pelo pacote. Este financiamento já existe.
-Outro mito: o pacote inibe as importações. A agricultura já comemora por antecedência. Errado. Mesmo que quisesse reprimir por decreto as importações, o governo teria de capitular diante dos primeiros sinais de deficiência no abastecimento. Afinal, está fazendo coisas piores para manter os preços da cesta básica e inflação. Ou não? Além disso, o pacote não pode sobrepor itens do acordo do Mercosul. Por último, vale lembrar que em matéria de importação não conseguimos nem conter as operações triangulares amparadas (é o termo certo) no ainda difuso Mercosul. O máximo que o pacote vai conseguir, neste ponto, é disciplinar a supervalorização das importações. Mas isto tem peso relativo. Repasse
Do empresário João Carlos Paes Mendonça, presidente do grupo Bompreço: O pacote cria a expectativa de que haverá queda gradual nas taxas de juros até janeiro. ‘‘Se isso não ocorrer, haverá repasse para os preços’’.
Quem é
Paes Mendonça dirige a terceira maior rede de supermercados do país, com faturamento previsto de R$ 2 bilhões este ano. Ele incorpora o pensamento nacional do varejo. Não é preciso dizer mais nada.
Entre a cruz...
O consumidor fica entre juros altos e previsão (ameaça) de alta de preços. Ontem, uma revenda de carros em Londrina estava fixando juros numa venda em duas parcelas, de um carro usado.
IPI
A incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados vai permear altas de bens de consumo duráveis. O impacto abrange muitas linhas, não fica apenas nos veículos automotores, portanto.
Administrável
Por fim, vale observar o que disse Paes Mendonça: O pacote, não chegou a
ser traumático. As ações foram ‘‘de sinalização, de ajustamento’’. Todos vão pagar um pouco, mas será uma situação administrável’’,

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