OSWALDO PETRIN
Soja, uma pedra no camimho?
O Brasil tem mais sorte do que juízo. Ou a soja e o complexo soja são muito fortes no mercado internacional, que ficam acima de episódios, como este, extremamente desagradável, que envolve autoridades da China e do Brasil.
É que o mercado, ontem, tanto interno, como na Bolsa de Chicago, não tomou conhecimento da decisão chinesa de suspender as compras de soja do Brasil. Apenas se ateve aos fatores intrinsecos, como o pouco interesse pela compra e o interesse ainda menor pelas vendas, além da natural cautela de início de semana, como a falta de liquidez nas transações.
O que houve, no entanto, é um grave embaraço. A decisão do governo chinês de suspender a compra de soja brasileira fornecida pela ADM do Brasil e pela Louis Dreyfus Asia é - no mínimo - um balde de água fria na expectativa dos exportadores de vender este ano entre seis milhões e sete milhões de toneladas de grãos para a China.
O Brasil recua diplomaticamente, preferindo pedir desculpas, a ampliar as discussões. Isto porque tem outros itens a negociar com a China. Neste caso, a leitura que se faz é essa: a soja vai para o sacrifício, em favor de dezenas, talvez centenas, de outros itens a serem ofertados. Afinal, o presidente da República e numerosos empresários estão na China com essa finalidade.
Se o episódio não explode coincidentemente durante a visita do presidente Lula à China, a leitura, certamente, seria outra. Afinal, parece claro que a China busca pretextos para não cumprir contratos com as empresas acusadas de mistrar as sementes.
Convenhamos, contudo, que a falta de cumprimento às regras da sanidade também parece flagrante. Afinal, barreiras protecionistas, há vários anos, são disfarçadas de barreiras sanitárias. E motivos, neste caso, é o que não faltam num País cujos portos abrigam ratos e certamente outros descuidos.
O embarque da soja misturada foi feito no Porto de Rio Grande (RS).
O fato é que no primeiro dia da visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim, o governo chinês barrou a entrada de soja brasileira fornecida pelas tradings citadas acima.
E esta não é a melhor forma de dar boas-vindas.
LEITURA DINÂMICA
- A China é o maior mercado da soja brasileira: 20% das exportações (de 20 milhões de t. ano passado).
- Dias atrás, alegando que alguns carregamentos estavam misturados com sementes tratadas com fungicidas - Captan e Carboxin -, as autoridades chinesas suspenderam as importações de soja brasileira.
- A restrição foi dirigida à soja fornecida pela Noble Grain, Cargill Agrícola, Irmãos Trevisan e Bianchini.
- Esses carregamentos saíram do Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.
- O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, segundo a Agência Esado, saiu com essa: houve ''má fé'' na mistura de grãos de soja e sementes com agrotóxicos embarcada no Porto de Rio Grande e devolvida pelos chineses.
- Segundo o ministro, foi uma atitude de ''ganância e imediatismo'', e a Polícia Federal está investigando o caso.
- ''Os responsáveis serão punidos exemplarmente, de acordo com a lei brasileira'', disse Rodrigues.
- Há suspeita de que nesses carregamentos tenham sido desovadas sementes transgênicas, que não podem mais ser utilizadas.
(Veja mais nesta página, com notícias das agências)
DROPS
Mercado indiferente
A soja manteve tendência de queda ontem na Bolsa de Chicago. O primeiro contrato fechou com 866 centavos de dólar por bushel (27,2 quilos), 0,74% abaixo do valor de sexta-feira. Nos últimos 30 dias.
A queda acumulada é de 10,4%, mas os preços atuais ainda superam em 38% os do mesmo período de 2003.
Há problemas sim
A restrição chinesa à maioria das multinacionais exportadoras de soja que atuam na América do Sul, se for realmente levada a sério, terá dois efeitos contraditórios, diz um analista de mercado. De um lado, permite a expansão de novas empresas. De outro, o país terá problemas porque essas múltis colocaram 4 milhões dos 6 milhões de t exportadas pelos brasileiros para a China no ano passado.
Tendência é de queda
A soja manteve tendência de queda ontem na Bolsa de Chicago. O primeiro contrato fechou a 866 centavos de dólar por bushel (27,2 quilos), 0,74% abaixo do valor de sexta-feira. Nos últimos 30 dias, a queda acumulada é de 10,4%, mas os preços atuais ainda superam em 38% os do mesmo período de 2003.
Cenário obscuro
A análise do mercado de soja daqui para a frente terá de levar em conta outras variáveis, além do clima e performance da oferta e demanda no mundo.
''Foi-se o tempo em que demanda e a oferta indicavam os cenários futuros'', disse ontem um analista à Agência Folha. ''Agora, a entrada e a saída dos fundos de investimento e a concentração do mercado nas mãos das multinacionais vão dificultar cada vez mais as análises''.
Porto de Paranaguá
Mercado completamente parado ontem no Porto de Paranaguá. Para indicações de negócios prevaleceram os valores de sexta-feira, mas o ''lado da oferta'' não se manifestou, segundo analistas do mercado.
Preço médio no Paraná
O indicador de preços da soja Esalq ficou em R$ 45,78/saca, baixa de 1,63% no dia. Em dólar, o indicador ficou em US$ 14,40/saca, queda de 1,10%. O indicador é calculado com base nos preços do mercado disponível em cinco praças do Estado do Paraná.





