A soja e o fim do câmbio flutuante

O mercado de soja agiu com indiferença - pelo menos no primeiro dia - à decisão do governo de interferir no câmbio e comprar dólares diretamente no mercado para recompor as reservas do País.
Desde ontem, o Banco Central pode comprar dólares, em qualquer quantidade e quando quiser, interferindo, portanto, na cotação da moeda norte-americana -e nos negócios por ela lastreados.
Históricamente, toda vez que o BC interveio no mercado, as cotações foram alteradas artificialmente. Convenhamos, porém, que a (dis)paridade cambial, hoje, é factível de ajuste.
A medida incomodou os exportadores. Ontem, os setores de commodities agrícolas e carnes não arriscaram prever o tamanho do impacto, positivo ou negativo. A decisão pode representar uma tentativa de fortalecer o Real - apesar de a moeda brasileira ter se valorizado nos últimos dias perante o dólar. Nesse caso os produtos exportados perderiam a competitividade no mercado internacinal.
Mas a hipótese contrária - ou seja a valorização do dólar - também não está descartada.
A lógica indica uma desvalorização (ajuste) da moeda nacional - ainda que o governo não assuma esta posição - eleitoralmente incorreta. A medida pode sim impactar no mercado, dependendo do direcionamento que o BC der às suas incursões.
A propósito, vale lembrar: o dólar, ano passado, acumulou uma queda de 18%. No final de 2002, era vendido a R$ 3,545. Pela primeira vez desde 1966, a moeda norte-americana encerrou um ano com depreciação em relação à moeda brasileira. (Comparando: em 2002, o dólar chegou a ser negociado por R$ 4,005/US$ 1,00. Mas isto não conta porque eram tensões políticas).
Para Stael Prata, analista de soja da FNP Agroinformativos, se o governo entra no mercado comprando dólares, de imediato, não deixa de ser positivo para o setor exportador. Vai depender, porém, da calibragem dessa intervenção.
Manoel Pereira, analista da Correpar, também acredita que vai depender do direcionamento que o governo conferir à presença do BC no mercado
Fica a expectativa sobre o leilão eletrônico e o preço com que o BC aceitará adquirir o dólar neste início da vigência do novo sistema.
De inócuo a medida não tem nada.
O fato é que agora - depois de cinco anos de câmbio flutuante - as análises de mercado terão que levar em conta mais uma variável: as pretensões do governo com o câmbio. É mais um agente a ser consultado, o quase sempre sisudo Banco Central. Mais um fator para atrapalhar o fluxo natural do mercado.

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