OSWALDO PETRIN
Publicídio à brasileira 2
O IBGE divulgou ontem mais uma previsão de safra. Ao contrário do habitual, desta vez nenhum ministro apareceu para anunciar, comemorar e exibir aquele ufanismo como se fora ele o responsável pela produção, do plantio à colheita.
Dados sobre o aumento da produção, em geral, prejudicam o próprio dono da mercadoria. O agricultor sabe que comercialmente isto não é bom.
Na esteira dessas comemorações ocorrem aumentos nos insumos, que o setor está comprando para a safra seguinte. O pequeno produtor é o mais prejudicado.
O que fazer, então? Não se deve divulgar? Por que?
Claro que tem que ser divulgado. Os dados que mexem com o mercado, todos os dados, devem ser objeto da transparência desse mercado globalizado.
O problema é a forma triunfal e irreal. Os dados, como são colocados, falseiam a realidade sugerindo que o setor está nadando em dinheiro, quando na realidade temos vários tipos de agricultura e, dentro desses tipos, diferentes extratos e uma realidade muito heterogênea.
Tudo isso, para não falar que estatística no Brasil não é totalmente confiável. E que os números que se comemora são preliminares, sujeitos a chuvas e trovoadas. Literalmente, quando o assunto é agricultura.
Estão sujeitos ao clima, fator imponderável, que foge do controle do homem.
E as projeções contabilizam organismos vivos, animais ou vegetais e, por isso mesmo perecíveis, mutáveis.
Mais sensatos, os antigos comemoravam a colheita, na hora em que o mantimento entrava na tulha.
Aqui se divulga previsão (não resultado) de safra como se anuncia resultado de jogo de bicho. E comemora-se como vitória em olimpíadas.
Numa situação em que Bolsas e o próprio Usda, enfim, parceiros ou concorrentes, estão preocupados com o nosso crescimento, vêm os órgãos nacionais e ''entregam'' tudo.
Convenhamos que concorrentes não dependem dos nossos números; eles têm instrumental para diagnosticar melhor. Ora, então que apurem. E que os nossos números não deixem transparecer uma posição oficial, consumada.
A divulgação de ontem até que não incorreu no mesmo fiasco de sempre. Mas também não ficou livre de escorregões.
Por exemplo: o técnico do IBGE deu os dados como fechados, restando apenas o trigo, mas deixou entrever que o cereal está fora de risco.
Não é bem assim. No Paraná, maior produtor, o trigo não está a salvo. Há umidade em algumas regiões e, em outras, como nos Campos Gerais, o trigo tem todo o ciclo pela frente.





