OSWALDO PETRIN
Publicídio à brasileira
''A publicidade é um gás venenoso. Pode provocar lágrimas em seus olhos. Pode perturbar seu sistema nervoso. Pode derrubá-lo com um só golpe''.
Quem disse foi o publicitário norte-americano George Lois, de origem grega, autor do livro ''What's the big idea?''.
Observando certos apelos publicitários, tanto de empresas privadas como da propaganda oficial - invariavelmente de extremo mau gosto -, percebe-se que George Lois tem razão. E que a definição acima cabe também à propaganda brasileira, tão inventiva e inteligente e, ao mesmo tempo, tão amadora e, por vezes medíocre.
Em alguns casos falta-lhe a percepção dos limites da persuasão.
Percebe-se também a lógica da frase atribuída a Picasso: ''A arte é a mentira que se transforma em verdade'', especialmente porque esta definição é tão pertinente à publicidade.
Sentados à frente da telinha - da Globo, SBT, todas, enfim, mas especialmente dos canais abertos - é que percebemos o quanto os apelos são uma faca de dois gumes.
Dias atrás, alguem perguntava: quem ainda consegue ouvir aquela frase ''O Brasil que come ajudando o Brasil que tem fome''?.
A frase é sugestiva. A campanha, profundamente meritória, mas apesar da sua oportunidade e da grandeza social, o telespectador merece pelo menos um intervalo maior entre uma inserção e outra.
Por equívoco dos autores, ou por insistência do cliente, vira e mexe arremessam sobre nossos olhos e ouvidos algo que subestima a capacidade de pensar, inferir e concluir das pessoas.
Recentemente, o telespectator teve que engolir aquela campanha de uma marca famosa em que a apresentadora Ana Maria Braga aparece comprando televisores em suaves prestações. Ana Maria Braga parcelando compras de R$ 30,00 ou R$ 100,00 por mês, sinceramente, não dá. É subestimar demais.
Peço licença para definir como ''publicídio'' essas mensagens que não levam em conta a inteligência das pessoas.
E não são apenas as ''peças'' publicitárias que surpreendem. Publicídios ocorrem a todo momento, nas mensagens dos políticos, por exemplo.
Ainda esta semana o ministro do Planejamento projetou - e o fez publicamente - um salário mínimo de R$ 400,00 para 2006. Anúncios como este expressam a verdadeira capacidade de trabalhar com a desesperança das pessoas.
Ainda que reais, os dados são um pesadelo para grande parcela da população. O ministro poderia nos poupar desse pesadelo. São números que os brasilerios não fazem a menor questão de conhecer; são dispensáveis e nossa auto-estima agradece.





