OSWALDO PETRIN
Jogando contra
Onze dias depois que os preços do café desabaram, por culpa de uma previsão baixista da safra brasileira feita pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o mercado ainda não se reabilitou.
Os preços nas praças de Apucarana, Cornélio Procópio, Londrina e Maringá oscilavam entre R$ 180,00 e R$ 185,00/saca dois dias antes do anúncio dos dados do USDA. No dia seguinte cederam R$ 20,00 por saca e se mantiveram em baixa. Ontem os preços dos mesmos cafés (tipo 6 bebendo duro) não passaram de R$ 155,00; oscilando a partir de R$ 153,00.
Durante esse tempo todo a Conab não se preocupou em divulgar os seus números para contrapor os valores do Usda, que detonaram o mercado.
Houve uma conjugação de fatores para demolir os preços. Os produtores esperavam a liberação de um financiamento do Banco do Brasil - para custeio - cuja parcela estava prevista para dezembro. Não veio. E muitos tiveram que vender a mercadoria, pressionando a oferta.
Os números, todo o setor sabe. O Usda apontou uma produção de 51,6 milhões de sacas para a safra 2002/03. Mesma safra que a Embrapa e Conab previram 44,6 milhões de saca. Previram mas não defenderam esse número.
Quem tem Conab ou Embrapa fazendo previsão de safras - e jogando contra os produtores internos - nem precisa ter adversários no mercado internacional, onde a competição é terrível.
Na Bolsa, ontem, um dado positivo: o valor à vista em reais do indicador do café Esalq/BM&F ficou em R$ 180,01 para a saca de 60 kg, alta de 0,89% no dia. Em dólar, o valor ficou em US$ 50,57/saca, ganho de 1,87%. A prazo, a cotação ficou em R$ 181,48/saca, ganho de 0,89%.
Tudo resolvido - Apesar da alta dos juros básicos que o Copom deve aprovar hoje, a queda consecutiva do dólar conferiu ontem ao mercado a percepção de que a atual situação da economia pode prescindir da indexação de preços. Contribui para esta conclusão o fato de a inflação ter dado sinais de recuo.
Naturalmente os técnicos estão raciocinando a partir da eclosão de uma crise traumática que não aconteceu. Ou que ninguém assumiu. Ninguém está avaliando o rastro de pobreza e miséria deixados pelas altas de preços e das tarifas públicas nos últimos meses. A sensação é de um cinismo descarado entre agentes econômicos e analistas (de)formadores de opinião.
Papel Noel - Ontem a Fipe incorporou Papai Noel: para 2003, a projeção é de uma inflação bem menor, de 7%. Esta taxa, no entanto, é superior ao teto da meta de inflação do Banco Central (BC) para o ano que vem, de 6,5%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).





