OSWALDO PETRIN
Sonho interrompido
Estava muito bom para ser duradouro. Fim das especulações, redução do risco Brasil e o dólar recuando lentamente. E os cidadãos, civicamente, torcendo para que mais alguma semanas de baixa pudessem neutralizar a espiral inflacionária. De repente, bastou um tropeço na rolagem da dívida e o câmbio retoma o caminho inverso.
Pior que o diferencial da disparidade é o recado que a alta de ontem está passando ao mercado: a economia está longe de conseguir a estabilidade desejada e cada um que procure abrigo onde puder, inclusive na própria moeda norte-americana.
Não houve tempo para o mercado das principais commodities reagir. Seria o lado positivo de tantas perdas. Soja, café e o milho mantiveram preços da segunda-feira. Mas os juros foram afetados e já se prevê, inclusive, em nova alta nos juros básicos, a taxa Selic, reajustada em 22% no mês passado.
No mercado à vista, o dólar comercial oscilou 1,26% entre a mínima de R$ 3,575 (+0,99%) e a máxima de R$ 3,62 (+2,26%). No ano, o dólar contabiliza valorização de 55,87%.
A verdade é que a inflação está instalada sem disfarces. Resta saber como contorná-la. A melhor arma para o indivíduo é abrir mão do consumo. A pior alternativa para a economia é ter comércio sem consumidor.
Com o resultado de novembro, o IPCA-15 acumula 8,67% no ano e 9,27% em 12 meses (ver matéria neste caderno de Economia), tornando mais fortes as expectativas de que a inflação deste ano seja de dois dígitos, como apontou a última pesquisa feita pelo BC com instituições financeiras, divulgada ontem, segundo a qual 2002 fecharia com inflação de 10% pelo IPCA.
Soja não reage --- O indicador de preços da soja Esalq/BM&F ficou em R$ 47,85/saca, alta de 1,42% no dia. Em dólar, o indicador ficou em US$ 13,27/saca, alta de 3,19%. O indicador é calculado com base nos preços do mercado disponível em cinco praças do Estado do Paraná.
Forte queda --- O assunto mais comentado ontem nas praças cafeeiras de Apucarana, Cornélio Procópio, Londrina e Maringá foi a previsão de quebra da safra 2003/04. Os dados, divulgados pela manhã pela ''Safras & Mercados'', apontam redução de 50% em relação a safra 2002/03, devendo ficar numa faixa de 20 milhões a 22 milhões de sacas (60 kg).
É uma avaliação preliminar, mas deu margem à especulação e muito otimismo por parte dos produtores e beneficiadores. O autor da previsão é o engenheiro agrônomo Roberto Antônio Thomaziello, do Centro de Café Alcides Carvalho do IAC.
Ele é considerado um dos mais renomados pesquisdores da área de produção, com trânsito livre e conhecimento em todas as áreas do café, comenta o comerciante Marcos Baccetti, de Londrina.
Ciclo bienal --- De fato a redução não deve ficar muito longe do previsto por Thomaziello. Apenas pelo ciclo bienal da cultura, a safra que será colhida no ano que vem já seria menor. Mas a situação é agravada por uma condição de clima adversa que afeta a florada que vem após a próxima colheita.
Palavras de Thomaziello: ''Se se a safra brasileira deste ano confirmar 45 milhões de sacas, na próxima devemos ter uma produção de 20 a 22 milhões de sacas''.





