Abastecimento dolarizado
Tudo bem que a disparidade cambial explodiu este ano (em fins de setembro já havia ultrapassado 50% no ano, devendo estar entre 53% e 55% esta semana), mas o ministro Pratini, da Agricultura, não precisava escolher o milho como vilão só porque os preços do produto acompanharam o mercado internacional.
A dolarização é uma defesa natural do mercado e só ocorre em tempo de escassez.
O ministro criticou duramente o atrelamento do preço do milho (e dos combustíveis) ao câmbio. E chegou a ameaçar de confisco para atendimento emergencial à avicultura e suinocultura.
De concreto, apenas a notícia de que a Conab deve comprar esta semana 150 mil toneladas de milho para as granjas que trabalham em sistema independente, as não integradas.
Mas o ministro tem razão, e até foi aplaudido ao criticar a relação entre preço de combustíveis e altas do dólar. ''Por que a gasolina tem que aumentar quando aumenta a taxa de câmbio, sendo que a maior parte da gasolina é produzida em território nacional? Temos que acabar com a dolarização quando ela decorre de aumentos completamente estapafúrdios'' - disse o ministro.
Com relação ao milho, não foi o aumento do dólar que comprometeu o abastecimento e quase quebrou alguns suinocultores; foi a ausência de produção e estoques reguladores; isto é a ausência de uma política que apontasse pelo menos alguns indicadores.
Sem parâmetro e sem sinalização mínima sobre os preços, a área de plantio será sempre determinada pelo que ocorre no curtíssimo prazo, ou pelo imediatismo (defensivo) dos produtores.
Ano passado, o Brasil exportou milho, e a ''dolarização'', que transpareceu na balança comercial, foi comemorada por produtores e governo.
Em situação inversa, quando aperta o nosso calo como agora, a dolarização é coisa no demônio.
Mas não será possível exorcizá-la; ela faz parte das leis do mercado. Quando falta produção, todos reclamam...e todos têm razão. O produtor de milho tem mais. E aquele que migrou para a soja tem mais ainda.
Em tempo de turbulência sobre economias fracas, o dólar passa a permear todo o mercado.
O milho dolarizado é execrado porque dói no lombo do (dono) porco, que certamente tem alguma representação e se defende.
O trigo também é dolarizado, mas o consumidor não tem como reclamar, ao contrário dos donos do porco ou do frango que, bem ou mal têm lá seus canais de pressão.
O dono da farinha também, mas não tem interesse em mudar o quadro. Aqui o lombo é do consumidor, que tem couro grosso e curtido. Aguenta mais.
Ficamos assim, se os lucros da dolarização este ano trarão abundância ano que vem...então viva a dolarização!

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