OSWALDO PETRIN
Lula e o agronegócio
É cedo para conjecturas, porém uma leitura da entrevista do professor José Graziano da Silva, coordenador para a agricultura da campanha de Lula, deixa entrever pontos que o PT vai priorizar para executar uma política de abastecimento dentro do ideário do partido de reduzir a fome na cidade e melhorar a vida no campo.
Mas, pelo menos uma posição do professor Graziano certamente será questionada.
É que segundo ele, ``a dicotomia entre os projetos para agricultura familiar e empresarial segue a mesma lógica de outras áreas do programa do partido``, isto é, a lógica de que é imprescindível a criação de um pacto social para fazer o País voltar a crescer.
Ele critica a postura do governo atual de manter um Ministério para o agribusiness e um Ministério ``para os pobres``. Graziano quer conferir forte carater social em todos os segmentos, daí achar desnecessário conduzir essas duas políticas de forma distinta.
A posição do professor Graziano sugere que o novo governo quer atribuir (também) à agricultura de exportação uma tarefa de gerar empregos.
Na verdade, isso ocorre automaticamente quando há crescimento (pela competitividade e expansão do mercado) e não necessariamente mediante pactos sociais, ou algo semelhante, que na maioria das vezes oneram os custos.
Já a política para a pequena produção deve contar com estímulos a custos baixos - ou mesmo a fundos perdidos - e deve implementar políticas de abastecimento voltadas para redução dos preços dos alimentos para que todos tenham acesso à comida.
Mais consumo significa aumento do mercado e da renda no campo. Sem falar dos benefícios na cidade, a começar da redução dos gastos com a saúde, já que alimentação é o melhor tratamento preventivo contra doenças. O PT entende bem disso.
Mas, tratar as duas linhas de produção - agricultura de escala e familiar - com igual critério e objetivo, certamente será um ponto de divergência entre Graziano e a maioria dos técnicos, possivelmente entre os próprios petistas.
Há prioriedades - para não dizer privilégios - que devem ser exclusivos da agricultura familiar com toda urgência. Mas que jamais podem ser conferidos à agricultura comercial.
Por outro lado, não se pode onerar a agricultura de escala - que precisa ser competitiva e ganhar mercados para converter commodities em dólares para o País. Ser competitivo, significa reduzir encargos sociais com mão-de-obra, por exemplo - um ponto que Grazziano certamente reprova ao afirmar que ``a produção de cana-de-açúcar não pode chegar à mesma situação da produção de grãos, que utiliza pouca mão-de-obra``.
Agricultura familiar, voltada para o abastecimento, e produção de escala, voltada para o mercando internacional, não são excludentes ou conflitantes, mas devem ter tratamento distinto.
Graziano quer que as duas agriculturas cumpram papel social. Outros entendidos dirão que a exportação tem que ser desonerada. A produção familiar tem que ser tratada num contexto mais ousado e dimensionado dentro dos objetivos do próprio PT.





