Um recuo muito suspeito


Um governo indolente e fraco para tomar medidas internas, com certeza não seria diferente perante instituições internacionais como a OMC, ainda mais para enfrentar os EUA.
Estamos falando da decisão de ontem da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Mais uma vez ela empurrou com a barriga a queixa que deveria fazer à OMC contra os subsídios norte-americanos aos produtores de soja.
A justificativa do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, não tem a menor consistência (‘‘Queremos nos certificar de que o processo está bem feito e que se trata de uma boa demanda’’), afinal o Ministério da Agricultura tem dados suficientes para embasar a ‘‘boa demanda’’.
O motivo é outro. De repente é estratégico e plausível até. Mas Sérgio Amaral não tem o direito de subestimar os estudos do Ministério da Agricultura.
Outro burocrata do Itamaraty, o embaixador Clodoaldo Hugueney, subsecretário-geral de Integração e Comércio Exterior, disse que o caso é complexo...‘‘Queremos aprofundar a análise e tomar uma decisão que seja confortável para todos’’.
Ironia. O que o Itamaraty mais entende é mesmo coisas confortáveis.
Ninguém espera que o governo FHC adote uma postura hostil na OMC. Nem é preciso antagonizar o governo Bush. Mas, neste caso, pior que o afrouxar é omitir-se quando os agricultores brasileiros são prejudicados com tais subsídios.
Dias atrás, o presidente da Faep, Ágide Meneguette, escreveu artigo à imprensa com o título ‘‘Atitude covarde’’ em que apela: ‘‘é preciso deixar a atitude frouxa e enfrentar a fera’’. No artigo, Ágide relata como o produtor brasileiro é prejudicado e o que está se tentando fazer para combater o protecionismo norte-americano.
O governo cemeçou a levantar recursos junto aos produtores, através da CNA e OCB, para entrar com processo na OMC contra os subsídios dos EUA. As entidades concordaram porque têm todos os dados sobre os prejuízos causados pelos subsídios ao produto concorrente.
Apesar de encontrar todo apoio os produtores - e embasameto técnico para fundamentar uma ação na OMC -, o governo, inexplicavelmente, está protelando a medida.
‘‘Até o momento o governo brasileiro não se dispôs a iniciar os procedimentos, porque existe uma ala que acha que qualquer queixa contra o protecionismo dos Estados Unidos poderia gerar retaliações contra o Brasil’’.
Mas Ágide mostra que retaliações já existem, citando exemplos.
A conclusão é que os temores de nossa diplomacia não têm fundamento, porque as restrições são permanentes e não temos nada a perder.

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