Obsessão pela qualidade


O agronegócio brasileiro acordou tarde e passou a perseguir o fator qualidade com certa obsessão. A carne avança na rastreabilidade; os hortifruti saem da caixa rudimentar, de madeira, para padronização e o café cria selos em profusão, a seu modo. Até a CPI do leite no Paraná, formada para apurar abuso de poder do varejo e da indústria, inclui o fator qualidade no rol das recomendações aos produtores - nada melhor para desviar o foco do principal problema.
O Comitê Brasileiro do Café, instalado ontem, em São Paulo, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, vai criar normas que atendam às características do mercado. A normalização do café vai compreender café verde, torrado e moído e café solúvel no que diz respeito à terminologia, amostragem, especificação, métodos de ensaio e outros requisitos para embalagem, estocagem e transporte.
Face à inexistência de normas, o Brasil tem que obedecer padrões impostos pelos principais compradores internacionais como a Kraft General Foods e Procter&Gamble.
O Comitê Brasileiro vai fazer com que o setor desperte para os efeitos da globalização que, em vez de facilitar as trocas internacionais, se transformou em barreiras impostas pelos países industrializados. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel, Mauro Malta, é preciso perceber este protecionismo crescente, envolvendo barreiras tarifárias e subsídios, que acabam tendo efeito maléfico sobre as nações menos desenvolvidas.
Mais do que as normas, os paulistas querem definir tipos que transcedem as classificações convencionais:
Uma linha de café ‘‘gourmet’’, para ser vendido até por R$ 12,50/quilo; outra de café ‘‘superior’’, que ficará em R$ 8,40/quilo e cafés ‘‘especiais’’, que poderão chegar a R$ 40,00/quilo.
E o consumidor, aonde está?
Há demanda, só que restrita em paladares muito exigentes, nichos de mercado. E boutiques de cafés da Europa e Estados Unidos.
Para não denotar maquiagem, as mesmas marcas vãp manter inalteradas suas linhas atuais, que variam entre R$ 4,50 e R$ 4,80 - o grande mercado brasileiro.
O comerciante paranaense Marcos Baccetti ouviu do dirigente de uma das indústrias exportadoras de café, que o Brasil está se espelhando no sucesso da Alemanha. Sem produzir um grão da matéria-prima, a indústeria alemã é a quarta maior potência de cafés finos.
Mas o consumidor ganha. Normatizados, o café verde, torrado e moído e o café solúvel, além dos produtos alimentícios com base no café, darão mais confiança ao consumidor, vez ou outra ‘‘premiado’’ com matéria-prima ‘‘blends’’ de café e milho, café e aveia ou simplesmente café-com-impurezas-mil.

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