A crise da farinha


Em casa que não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão, diz o velho adágio popular interiorano. Só que, no caso, o pão existe, o que falta é consumo.
E a ameaça sobre o abastecimento se expressa de outras formas: tem origem na falta de produção própria do grão, já que a farinha, cara ou barata, de algum lugar vem.
O impasse que surge é o seguinte: se a indústria moageira de trigo reajustar os preços da farinha, como se cogitou no final da semana passada, o consumo de derivados sofrerá nova queda por não conseguir assimilar a alta, por mais modesta que seja.
O aviso é de fonte da Associação Brasileira da Indústria de Panificação, diante de informações de que a farinha de trigo deve sofrer reajuste de até 18% ainda esta semana.
O aumento não tem como ser protelado, segundo o setor - que tem sua margem comprimida por conta da desvalorização cambial. A outra razão seria o próprio aumento da matéria-prima importada da Argentina.
Enquanto a cadeia produtiva do trigo não se entende, o consumo pode cair mais. Dias atrás, em audiência pública na Comissão de Agricultura e Política Rural, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Panificação e Confeitaria (Abip), Marcos Salomão, disse que o consumo de pão no Brasil é muito baixo - apenas 27 kg por pessoa/ano, contra 100 kg na Alemanha, por exemplo.
Mas, neste momento, o que preocupa são os rápidos aumentos no preço do produto importado. Menos de três semanas atrás, a tonelada do trigo argentino estava cotada a de US$ 135. Ontem, os moinhos de São Paulo não conseguiram comprar a farinha argentina por menos de US$ 150/t.
Menos, mal, porém: a taxa de câmbio no fim de 2002 deve permanecer estável em R$ 2,50, e as previsões para o fim de 2003 - eleições à parte - também continuaram em R$ 2,62.
O trigo americano acaba saindo mais barato, mesmo pagando Tarifa 11,5% para entrar no Brasil. Indústrias paulistas estão importando por US$ 163,50/t posto Santos.
Como toda notícia tem seu lado positivo, a polêmica em torno da importação de trigo pode refletir na próxima safra nacional, com aumento da área e mais investimento na cultura, diante da perspectiva de um mercado interno que não fará ‘‘corpo mole’’ na hora de comprar.
A safra de trigo deverá atingir 3,82 milhões de t, contra 3,19 milhões da safra passada. Mas o maior aumento deve ocorrer no inverno de 2003, a julgar pela disposição do setor sementeiro.
A área plantada de trigo cresceu 13,9%, passando de 1,7 milhão de hectares para 1,9 milhão de ha. Só para lembrar e comparar: a produção brasileira de trigo já foi de 6 milhões de t - na safra 1987/1988. Faz tempo.

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