Oswaldo Petrin
Dois setores fortes no Paraná - a indústria moageira de trigo e a cadeia produtiva da mandioca - brigam pelo mercado, tendo como pano de fundo o questionamento técnico da mistura de suas matérias-primas. As fecularias, amparadas por um projeto de lei, apostam na mistura de 10% de amido em 90% da farinha de trigo brasileira.
Hoje, os interesses de mais de uma centena de indústrias moageiras de trigo e fecularias de mandioca estarão em discussão na audiência pública sobre o tema, promovida em Brasília pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados.
Ontem, a indústria moageira de trigo divulgou estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontando a inconveniência da mistura - agora para a balança comercial.
A discussão envolve o futuro de mais 50 moinhos de trigo nos três Estados do Sul e cerca de 150 fecularias no Paraná e Santa Catarina.
A indústria do trigo bate forte. O recém-concluído estudo da FGV avalia que o projeto de lei (4679), que propõe a mistura obrigatória, ao contrário do alegado, tende a piorar a balança comercial do País e prejudicar a produção nacional de trigo. A obrigatoriedade, além disso, não favorecerá o pequeno produtor, nem a queda dos preços da farinha de trigo.
A FGV avalia que, no caso de aprovação da obrigatoriedade, o aumento dos preços da mandioca, na fase agrícola, se concentrarão nos estados do Sul e Sudeste, onde se concentra a maior parte tanto dos moinhos como das fábricas de fécula existentes. Mas a FGV avalia que esse aumento não será duradouro pois a alta de preços tende a atrair produtores mais tecnificados, de maior porte e capacitação empresarial que os atuais produtores de mandioca.
Portanto, o projeto de lei favorecerá os industriais produtores de fécula e os produtores, principalmente os de maior porte, localizados no Sul e no Sudeste. E prejudicará os interesses dos consumidores finais de derivados de trigo e, principalmente, de derivados de mandioca, que pertencem, em sua grande maioria, às faixas de menor renda da sociedade.
Reduzir as importações brasileiras de trigo, que são volumosas, uma vez que o Brasil importa 75% do que consome. A análise da FGV chama a atenção para o fato de que o corte de demanda de trigo decorrente da aprovação do projeto de lei deve incidir mais fortemente sobre a produção doméstica, dada a maior competitividade do trigo argentino, que possui maior percentual de proteína do que o brasileiro, característica já valorizada pelo mercado e que deverá ser ainda mais favorecida pela obrigatoriedade da mistura.





