A Fiesp divulgou ontem novos cálculos sobre o peso das taxas de juros sobre o capital de giro das indústrias e sua influência na formação de preços finais dos produtos. As taxas de juros cobradas pelos bancos no financiamento do capital de giro já representam, em média, cerca de 10,34% do preço final dos produtos.
Estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e divulgado ontem pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), revela que, quanto maior a cadeia de produção, maior será o impacto dos juros no custo final. Para o diretor do Departamento de Competitividade da Fiesp, Mário Bernardini, o estudo demonstra que o Banco Central já poderia ter reduzido a taxa Selic em pelo menos 3 pontos porcentuais sem risco de comprometer o cumprimento da meta de inflação para este ano, de 3,5%, com intervalo de tolerância de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos.
‘‘O juro elevado é defendido em prosa e verso pelo BC como condição sine qua non para controlar a inflação, mas estamos mostrando que o remédio em excesso ajuda a aumentar os custos de produção. Ou seja, pressiona a inflação’’, disse o diretor da Fiesp (entrevista ao repórter Marcelo Rehder, da Agência Estado).
Segundo ele, as taxas de juros cobradas pelos bancos estão próximas de 45% ano ano, bem acima dos 18,5% da Selic. O estudo da FGV mostra que o impacto da taxa de mercado sobre o custo de setores com ciclo longo de produção, como a indústria do açúcar, por exemplo, que leva de cinco a seis meses para ter o produto final, pode chegar até a 27,77%. Em setores de ciclo mais curto, como o de extração de petróleo, gás natural e outros combustíveis, a contribuição cai para 2,45%.
Para a Fiesp, a possibilidade de repasse para preços também varia de setor para setor. ‘‘Os setores concorrenciais certamente repassariam boa parte da redução de custos para o consumidor final. Já os oligopólios e monopólios poderiam embolsar a diferença’’, observou Bernardini.
‘‘A taxa de juros representa mais um capítulo das distorções no Brasil’’, disse o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva. Segundo ele, o País tem uma das taxas mais altas do mundo e compete com países onde o juro real é próximo de zero e o spread (a diferença entre o custo de captação e de empréstimo) é de 4 a 5 pontos porcentuais. ‘‘A taxa de juros no Brasil é dez vezes maior do que a da Coréia e da Austrália, que são nossos competidores diretos.’’
Considerando que os impostos em cascata (PIS/Pasep, Cofins e CPMF), segundo outro estudo da FGV, representam 9,1% do custo das indústrias, Piva observou que, em média, o produto brasileiro hoje fica encarecido em pelo menos 20%. ‘‘Na disputa com nossos concorrentes internacionais já saímos com uma mochila de 20 quilos nas costas.’’
Para o presidente da Fiesp, num ambiente competitivo, juros reais em queda significam custos e preços menores. Piva considera que este é o ponto central para o País voltar a crescer (AE).

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