O produtor de leite e diretor da Faep, o médico-veterinário Ronei Volpi, foi claro ao ser entrevistado esta semana, em Londrina, sobre a falta de colaboração do setor varejista para com a CPI do leite, que quer identificar gargalos e buscar solução para a crise do setor. O caminho, segundo ele, é entrar com pedido de ação investigativa junto à Secretaria de Direitos Econômicos do Ministério da Justiça.
Daí o processo vai desembocar no Cade (Conselho Admistrativo de Direito Econômico) que tem ação investigativa e punitiva.
No relatório da CPI sobre o leite o que não falta são denúncias graves contra abusos cometidos pelos setores industrial e varejo (supermercados). De todas as irregularidades, a mais acintosa é a da bonificação. No caso do leite, a bonificação funciona de maneira bem grotesca, mais ou menos assim: o fornecedor (no caso a indústria) recebe pela venda de determinado número de caixas, ou litros, mas entrega um número maior, no estilo ‘‘pague dois sabonetes e leve três’’.
No caso do leite, produto nobre mas objeto de promoção, os supermercados querem receber mais e pagar menos. Esse tipo de enganação é com eles mesmos.
É óbvio que a indústria repassa isto para o produtor. A indústria no caso é um refém passivo, condescendente.
O fato é que a CPI, criada para identificar gargalos, acabou encontrando verdadeiras feridas da cadeia produtiva do leite. Ao final de exposições dos deputados das CPIs, tanto do Paraná como de Goiás e Minas Gerais, o sentimento de muitos dos mais de 500 produtores presentes ao Encontro de Londrina era de que o leite não tem parceiros comerciais, tem predadores.
O Cade - evocado por Volpi - já está disposto a entrar na briga. Na próxima terça-feira, 16, em audiência pública na Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara Federal, além dos parlamentares e representantes da cadeia, lá estarão também o presidente do Cade, João Grandino Rosas, e o secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Paulo De Tarso Ramos Ribeiro
Castigados como os produtores paranaenses, os mineiros têm pressa. Na segunda, 15, farão manifestação no seu Estado para cobrar do Ministério Público a averiguação de denúncias apresentadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigou o mecanismo de formação de preços do produto no Estado.
O relatório final da comissão foi apresentado esta semana e aponta a formação de cartel entre as indústrias, com o objetivo de reduzir o preço pago ao produtor, além do abuso econômico do comércio varejista na venda do produto e o monopólio da Tetra Pak no fornecimento de embalagem para o leite longa vida.
O relatório será entregue na segunda-feira ao procurador-geral do Estado, Nedens Ulysses Freire Vieira, com um pedido de quebra de sigilo fiscal de supermercados e indústrias.
Uma solução está distante, porém houve avanços. Os produtores - interpretando opinião de Volpi - não querem excluir esse ou aquele segmento; acham que há espaço e fatias do mercado para todos. Mas não querem continuar (no dizer de um produtor de Maringá) no papel de quem ‘‘segura a vaca para os outros mamarem’’.

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