Depois de ouvir cerca de 60 relatos e denúncias nas regiões de Ponta Grossa, Guarapuava, Francisco Beltrão, Cascavel, Maringá e Londrina, sobre distorções e achatamento do preço do leite, a CPI dos Alimentos da Assembléia Legislativa - a CPI do leite - começa a elaborar o documento com uma conclusão antecipada, que é mais ou menos a seguinte:
Por ser o mais fraco, o produtor é o único perdedor nas relações entre os diversos elos da cadeia produtiva do leite. Ganham os laticínios, a indústria de leite em pó e lácteos em geral; ganham os supermercados. E como ganham. Até o empório da esquina ganha bem. O dono da vaca só perde.
Está havendo brutal transferência de rendas do produtor para os laticínios, fabricantes de insumos, medicamentos veterinários e embalagens - segundo os membros da CPI, confirmando o que o Departamento Técnico de Pecuária Leiteira da Faep já havia apurado.
A razão é aritmética, escreve o assessor da Faep, Luiz Carlos Rizzo. Todos os produtores ouvidos apontam para custo médio de produção do litro entre R$ 0,22 a R$ 0,35 - variando de acordo com o grau de tecnificação. Os laticínios - cooperativas, grandes indústrias ou multinacionais - não pagam na média geral mais de R$ 0,21.
Descontando-se fretes, impostos e demais despesas, entram líquido para o bolso do produtor não mais de R$ 0,18 em média. Quando se trata do leite extra-cota, há casos em que a remuneração líquida não passa de R$ 0,11 o litro.
É simples. Quanto maior a produção diária na propriedade, mais elevado o prejuízo. Não é por acaso que produtores tradicionais optam pela lógica financeira: leiloam seus plantéis e vendem a propriedade.
Em Mandaguari, o produtor Vicente Romagnole, apaixonado pela raça holandesa, não suportou mais operar no vermelho e se desfez de seu plantel. Ficaram para trás as lembranças de troféus conquistados em torneios leiteiros e a importação de novilhas do Canadá.
Em Maringá, o casal Derly-Ilza Bernardi bem que tentou até o fim. Mas, diante de balanços tão desfavoráveis, optou em leiloar seu plantel de gado Jersey que faturava também os torneios leiteiros da categoria e, para não ficar nenhuma lembrança, vendeu até a propriedade rural.
Em ambas as situações, falou mais alto a questão contábil. Não dá para continuar jogando dinheiro bom (das atividades empresariais urbanas) num negócio em que, reconhecidamente, se perde muito dinheiro neste momento.
Mas o mercado pode pagar melhores preços. O aumento dos preços dos lácteos, especialmente queijos e leite longa vida, no mercado atacadista, sinaliza que as indústrias já podem melhorar o preço pago pelo produto.
Avaliação da Confederação Nacional da Agricultura: se a indústria ficar com todo o ganho obtido com a recuperação de preços dos lácteos no mercado, sem repassar imedaitamente uma percela aos produtores, haverá desestímulo e queda de produção no setor.
Não acredito nessa história de o custo de produção ser mais maior que o valor recebido. Mas não tenho dúvida de que, ao reduzir esses custos (e transferir vantagens para a indústria), o produtor está sacrificando ao máximo seu plantel. E aí sim, a perda, no longo prazo, será muito mais significativa do que míseros centavos que alegam estar perdendo no momento.

mockup