Não será novidade se a CPI do leite - após audiências públicas em várias cidades, esta semana - concluir que as próprias indústrias das cooperativas (teoricamente dos produtores) estão contribuindo para achatamento dos preços ao pecuarista. O diagnóstico da CPI quer identificar pontos de estrangulamento da comercialização que expliquem a discrepância entre preços recebidos pelos produtores e preços pagos pelos consumidores (ver reportagem na página 4).
Talvez ‘‘achamento’’ não seja o termo exato, mas, digamos ‘‘manutenção’’ desses preços que os produtores consideram tão baixos.
Não passa pela cabeça de ninguém, em sã consciência, que indústrias, deliberadamente, queiram aviltar o preço do seu fornecedor. Principalmente se essa indústria pertence à alguma cooperativa ou grupo de produtores.
Porém, a tese de que, para as indústrias, a situação ‘‘está boa como estᒒ não deve ser totalmente descartada. Afinal, estamos em tempo de concorrência acirrada. Ainda mais tendo que negociar com um varejo forte, concentrador e duro na queda.
Um dos papéis da agroindustrialização, além de agregar valores, é o de regular o mercado. Nesse contexto, alguns produtores não se dão por satisfeitos com o argumento de que o varejo é tão forte que as indústrias se submetem aos seus preços sem outra saída.
Parcela de produtores acha, isto sim, que se o varejo paga pouco é porque encontra um preço generoso ofertado pela indústria que, por sua vez, recebe oferta abundante de matéria-prima.
Ora, na relação entre cooperativa e associado, o parâmetro aferidor de preços jamais pode ser o da oferta e procura - saudável referencial no livre mercado. A relação entre a indústria cooperativa e o seu associado é a relação das salvaguardas, da garantia da margem justa, do conceito de cadeia produtiva.
A indústria (do cooperado), tanto quanto os estoques, a infra-estrutura, a logística, os financiamentos de comercialização e outros, faz parte dos instrumentos que as cooperativas devem lançar mão para garantir a sustentação de preços, em tempo de excesso. Se não for essa, qual a função de uma indústria cooperativa?.
Mas a CPI do leite, convenhamos, tem outros pontos a serem atacados. Um deles está relacionado com essa ‘‘afinidade’’ intrigante do varejo em pagar pouco e fazer promoção-chamariz com o produto. Nada é mais constrangedor para quem produz, do que ver o resultado do seu esforço sendo objeto da prática de preço vil.

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