Oswaldo Petrin
Se o Brasil pagou caro, três anos atrás, por retardar o ajuste do câmbio, mantendo por um tempo exagerado a ilusão da paridade, neste momento corre o risco de acelerar uma desvalorização do real cujos efeitos podem desembocar no aumento da inflação. Aliás, mantida à duras penas com a recessão e altas taxas de juros que inibem a expansão da economia.
Especulações existem e ontem as agências de notícia divulgaram mais uma dessas análises sugerindo uma desvalorização maior da moeda nacional.
De fato, a economia dá sinais de que precisa de ajuste ainda este ano; talvez no primeiro semestre. Mas não é nessa dosagem, certamente. Tal ajuste deve ser feito no justo calibre da inflação e indicadores do desempenho no período. E sem perder de vista que o ano é político, sujeito a outras disfunções.
Segundo a Agência Estado, análise do Lloyds TSB, feita pelo economista-chefe, Odair Abate, mostra que a cada dia surgem novas adesões à idéia de que a taxa de câmbio deveria e poderia subir para R$ 3,00 ou R$ 3,50 (45%), para estimular uma melhoria na balança comercial e reduzir a dependência externa do País.
Segundo o analista, essa é uma alternativa que não seria vista com desagrado pelo candidato do governo à presidência. Mas há ressalvas. Considerando-se o desvalorização cambial desde 1999, uma desvalorização do real desse tamanho (R$ 3,50), estima ele, causaria impactos adicionais na inflação da ordem de 9 pontos percentuais, em um período de três anos.
Por isso, ainda segundo Abate, é importante que a inflação ceda o máximo possível, antes de tal iniciativa, para evitar desconforto no futuro. Mas, é inegável que as metas inflacionárias tão rígidas, que têm sido estabelecidas nos últimos anos deveriam ser revistas (talvez até com a adoção do core inflation), diz, em depoimento à Sandra Silva, AE.
Outro ponto está relacionado ao impacto de uma desvalorização desse tamanho sobre a dívida pública. É certo que o processo poderia ser gradual e que a queda de juros reais poderia compensar parte do efeito negativo da desvalorização, mas a participação de papéis cambiais na dívida interna brasileira (pouco menos de 30%) levaria a uma elevação expressiva da dívida pública. Os impactos negativos para a inflação e dívida pública sugerem mudança sem radicalismo, diz o economista.
No limite, uma desvalorização de 45% (hipótese de R$ 3,50 sobre os atuais R$ 2,40, por exemplo), teria impacto aproximado de 13 pontos percentuais na dívida. Mesmo que o juro real caísse de 10% para 7%, teríamos uma expressiva alta desses débitos.





