Oswaldo Petrin
Futurologia da inflação
As estimativas para a inflação do ano apresentam índices para todos os gostos.
O governo, por exemplo, aponta ilusórios 3,5%, mesmo que tenha de rever as metas no meio do caminho e, no final do exercício, como ateceu ainda esta semana, peça explicações ao presidente do Banco Central. Malan não se sentiu ridículo, ao fazer isto, mas Arminio Fraga, com certeza. Em 2001 foi assim: economia no gesso, mesmo assim o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) foi além das metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional.
Voltando às projeções para este ano: ontem o Instituto de Pesquisas Econômica Aplicadas (Ipea) previu IPCA perto de 5,5%, previsão razoável se toda a trajetória da economia pudesse manter o ritmo recessivo do primeiro trimestre. Esperar isto da metade do ano para frente, é exercício de futurologia.
No caso do Ipea entra até um ingrediente no mínimo insólito para os padrões brasileiros: converência e, depois, redução dos preços no varejo e atacado (veja nesta página).
Se depender - e é claro que depende - de variáveis determiantes como o transporte, a previsão dança. No Brasil e repasse de preços só funciona no sentido ativo. O atacado não repassa queda de preços, basta verificar o que ocorre com a carne, por exemplo.
Ao prever que o IPCA do ano fique entre 5% e 5,5%, o Ipea está considerando que o percentual está acima da média central do governo para a inflação em 2002, de 3,5%. Mas a meta tem uma tolerância de 2 pontos percentuais para baixo ou para cima, podendo oscilar entre 1,5% e 5,5%.
Ao mesmo tempo em que prevê estabilidade e até redução de preços, o Ipeia fala em recuperação econômica, o que sugere retomada do crescimento, vendas, margem de lucro, etc. Tudo isso, embora salutar, converge para recomposição de preços, na verdade reajuste de preços. É esperar para ver, mas o pessoal parece estar forçando demais, para um ano de eleições e complicado cenário externo.
Enfim, essa é a análise do Ipea, órgão do governo federal. Para o economista do Ipea Eustáquio Reis (ontem na Agência Folha), a economia está retomando o fôlego perdido no ano passado e os empresários estão aproveitando para repassar seus aumentos de custo para o consumidor.
A verdade é que qualquer projeção que se faça deve passar - também - pelo setor primário, de onde vêm os alimentos de origem animal e vegetal. E muitos técnicos se esquecem que este setor trabalha com fatores imponderáveis como o clima que rege o destino da agricultura.





