Oswaldo Petrin
Sábado, Dia do Leitor
Paulo Pieledi G. de Souza, de Maringá: ''O fabricante de queijo alemão, Wilson Hort, escreve para essa coluna (15/12) sugerindo que os supermercados, em última análise, zelem mais das mercadorias orgânicas, mais sensíveis por não terem conservantes químicos. Pensando bem, não deveria ser necessário o produtor ou fabricante se preocuparem, também, com o destino de um produto já passado para as mãos do varejo. No entanto, temos visto com frequência os vegetais, no nosso caso, terem seu tempo útil reduzido pela metade por falta de condicinamento adequado. Se os supermercados melhorarem em apenas um item, o da temperatura ambiente, já seria suficiente para manter a qualidade e reduzir as perdas.
Nota Paulo Pieledi Gomes é produtor e atacadista de hortifrutigranjeiros nas regiões de Curitiba, Maringá, Campo Mourão e Cascavel.
Ricardo G. Strenger,de Santo A. da Platina : Espetacular ''virada no campo''. O agronegócio atravessa um momento de glória, com superávit na balança comercial. Agricultura competitiva, safra de grãos recorde, com mais de 100 milhões de toneladas, produtividade elevada, estando à frente até dos mais desenvolvidos.
No café somos o maior produtor mundial, qualidade insuperável, produtividade aumentando graças a programas como o do Iapar para café adensado, um modelo tecnológico já consagrado.
O governo espera a quebra dos subsídios do Primeiro Mundo, das barreiras sanitárias e a tão decantada abertura da China. (Diga-se de passagem, nota zero para o Itamaraty, que em questões agrícolas é inoperante, sem ter sequer um adido agrícola em qualquer parte do mundo).
OMC, OIC, APPC, ALCA, Mercosul, Nafta e outras siglas regulando o comércio internacional. Reuniões e mais reuniões em Qatar, Genebra, Londres, Seatle, Nova York, e o agronegócio avança orgulhosamente.
Um mar de rosas?
Não, absolutamente não.
Os agricultores brasileiros estão excluídos deste mar, que talvez mais se encontre para pântano, onde afundamos dia a dia.
A renda do agricultor é a mais baixa dos últimos anos. Batemos recordes de produtividade, somos competentes, mas o diferencial de renda que sobra, hoje, é muito menor que no passado, e o risco para se produzir mais e melhor é grande. Às vezes até com prejuízos, como é o caso do café.
Sendo subsídio palavra proibida, ao menos temos absoluta necessidade de redução da carga de impostos que incidem sobre o campo. Nossos insumos e máquinas agrícolas são os mais caros do mundo, e os altos descontos de impostos sociais como Funrural, são injustos. Corrigir estas distorções trariam alguns benefícios.
''Agregação de valor'' são as palavras mais em moda no agronegócio brasileiro. Ministros e o presidente dizem que devemos agregar valor aos produtos, mas, como sabemos, este só tem chegado da porteira para fora.
Todos os segmentos da porteira para fora aprenderam a ganhar e naturalmente não querem dividir.
Estamos a caminhos de nos tornarmos trabalhadores sem carteira assinada, assim como já o são produtores de frango e suínos. A produção de grãos já se dá por troca de insumos, e no café já se fala em ''clusters'', que nada mais são do que as malévolas integrações.
Como tudo neste mundo globalizado, temos uma estrutura de produção e comercialização que pode ser representada por uma pirâmide, em que os mais espertos estão no topo e, na base, os peões, que no caso são os agricultores mantidos na imaturidade, sem identidade, frustrados e sem motivação.
Os do topo da pirâmide se acham melhores que os da base, mantidos estagnados e produzindo continuamente como quem está ligado por um piloto automático.
Temos realmente que agregar valor, mas da porteira para dentro, para o agricultor e para isso temos que arquitetar novas estruturas, que sejam permeáveis, transparentes, com pessoas envolvidas em co-criações, para gerar mais lucro e satisfação.
No caso do café, como não temos estruturas fortes de associativismo, a Associação Paranaense dos Cafeicultores (Apac) está propondo a união dos cafeicultores para que verticalizemos a produção e, assim, possamos agregar valor. Precisamos de volume de produção para termos fluxo continuo de entrega de produtos.
Propomos uma associação comercial profissional, fazendo com que o produtor se torne altamente qualificado da porteira para fora.
Planejamos constituir um comando administrativo contratado, com profissionais capacitados, conhecedores de mercado interno e externo e ainda negociadores internacionais.
O produto será classificado na entrada, já preparando sua valorização. Todas as estruturas de apoio, como armazéns, torrefações, serão terceirizadas, possibilitando uma rápida agregação de valor. A logística das operações será controlada à distância, com movimentação de cargas apenas no momento adequado. Há a necessidade de termos uma marca comercial forte e um marketing institucional eficiênte.
A Emater, o Iapar e a Secretaria da Agricultura já estão nos apoiando, o que é fundamental para o sucesso da proposta, que é complexa e será detalhada nos próximos dias.
Se não querem dividir de forma equitativa a renda do agronegócio café, o cafeicultor tem que deixar de ser o instrumento do lucro dos outros e lutar pelo que denominamos ''projeto agregar valor''.
Nota Ricardo Gonçalves Strenger é presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores (APAC).





