Abastecimento sob risco

A indústria moageira de trigo vive momentos nada confortáveis. Nem era preciso que a crise argentina se agravasse para o Brasil mostrar a vulnerabilidade do abastecimento de trigo.

Em circunstâncias como estas é que se percebe como faz falta um planto de produção e comercialização. Mas que indústrias e governo cumpram seus compromissos de estímulo ao plantio.

O País importa da Argentina mais de 70% do trigo que consome e há duas semanas praticamente não consegue fazer negócio porque o produtor argentino está segurando o cereal, à espera de uma definição da política econômica. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) informou à Agência Estado que ainda não há risco de desabastecimento porque a indústria tem estoque garantido até janeiro e, numa eventualidade, pode recorrer ao mercado interno.

Ora, não se recorre ao mercado interno em eventualidades. O mercado interno tem que estar estruturado e é isto que o Brasil insistentemente se recusa a fazer.

A produção nacional atingiu este ano 2,971 milhões de toneladas, para um consumo de pouco mais de 10 milhões de t.

Mas o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Roland Guth, em entrevista à repórter Jane Miklasevicius, da AE, disse temer problemas se a situação perdurar por mais 15 dias. ''Daí teremos de partir para importação do trigo dos Estados Unidos ou do Canadá, muito mais caro'', diz.

Pelas regras do Mercosul, todo o trigo comprado fora dos países do bloco paga Tarifa Externa Comum (TEC) de 12,5% e mais 25% sobre o frete. Os moinhos já vinham reivindicando a derrubada da TEC para diminuir sua dependência do trigo argentino. Agora, se o produtor argentino continuar segurando a produção, Guth diz que a indústria voltará a pressionar o governo federal para tornar viável a compra do cereal dos países da América do Norte.

Como se vê tudo gira em torno do ''curto prazo'' o que deixa o abastecimento sob risco. No mínimo, sujeito à especulações.

mockup