Oswaldo Petrin
-Uma reunião, na próxima segunda-feira, na Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abic), em São Paulo, vai discutir, entre outros assuntos, a importação triangulada de lácteos. O problema também incomoda a produção da matéria-prima, conforme o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (ex-associação dos produtores de leite B), Jorge Rubez.
-Dumping e triangulação no Mercosul, via Uruguai e Argentina, ganharam dimensão insuportáveis nos últimos meses. A União Européia paga US$ 0,40/litro ao seu produtor e vende aos exportadores (destino Brasil) por preços que variam entre US$ 0,20 e US$ 0,25/litro. E o mesmo leite que o consumidor europeu paga US$ 1,20/litro é vendido no Brasil por US$ 0,60/litro. Rubez disse que os números não são exatos mas tanto no dumping, que incorpora pesados subsídios ao produtor europeu, como no caso da venda triangulada, o estrago causado à produção interna gira em torno disso.
-Yes, o varejo brasileiro é o mais privilegiado do mundo. Consumidor idem.
-Os executivos das indústrias de leite da Alemanha costumam ironizar nas reuniões com entidades representativas dos consumidores: quem quiser tomar o nosso leite pela metade do preço - dizem - é só ir ao Brasil. Com certeza não estão mentindo, segundo Jorge Rubez. No começo, exigentes donas-de-casa alemãs ou inglesas não entendiam, mas hoje o mecanismo é conhecido e declarado, menos para os olhos da Organização Internacional do Comércio, que jamais recebera uma reclamação formal do governo brasileiro neste sentido. Sem triangulação, no puro subsídio e incentivo, o prazo é de dois anos, com juros de 5 a 12%. Os dados fazem parte de um levantamento da Associação dos Produtores de Leite. O crescimento impressiona: de janeiro a maio, a presença do Longa Vida foi para 82%, mais do que o leite em pó (34,9%) e o queijo (45%).
-Para Rubez, essas distorções - na verdade um grande escândalo -, são absorvidas internamente na carona do discurso da globalização. Nada tem a ver. Seria como o Brasil mandar 1 milhão de litros de leite diariamente para a Argentina pela metade do preço local. Estaria enxugando o seu mercado e arrebentando o produtor argentino. No caso da UE, ousadia semelhante enfrentaria barreiras de toda ordem: sanitária, ecológica. Mas no Brasil a entrada é livre, desabafa.
-Rubez acha que o governo brasileiro deveria encarar o problema como social - pelos danos causados ao produtor interno e à indústria nacional - e não como um fenômeno apenas comercial. Mas o discurso é diferente; o discurso é de que somos latifundiários e gerencialmente incompetentes. Na verdade, o nosso custo só perde para Argentina, Nova Zelândia e Austrália. Enquanto garantimos emprego e mercado para os outros países, mantemos 40 milhões de pessoas sem empregos e sem consumo algum, e uma crise que gera sem-terra, sem-teto e sem-perspectiva. Farra do leite





