Oswaldo Petrin
Os principais jornais devem publicar hoje um comunicado da Fazendas Reunidas Boi Gordo informando sobre o seu pedido de concordata preventiva, apresentado ontem à Justiça do município de Comodoro, no Estado de Mato Grosso. No final da tarde o próprio presidente da empresa, Paulo Roberto de Andrade, comunicou oficialmente a decisão a toda diretoria.
Para alguns empresários do setor, o fato não chegou a surpreender. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vinha alertando o mercado das irregularidades da empresa na emissão de títulos lastreados em boi gordo, os chamados CICs - contratos de investimento coletivo.
No comunicado, a Fazendas Reunidas explica aos investidores que a causa da decisão foi a demora de cinco meses para a aprovação do último pedido de reserva de subscrição de CIC por parte da CVM.
O comunicado, assinado por Paulo Roberto, afirma que ao longo desses meses a empresa viu-se obrigada a honrar seus compromissos sem, no entanto, contar com as receitas previstas, causando desequilíbrio financeiro
A empresa expressa sua intenção de honrar todos os vencimentos e afirma tratar-se de uma situação temporária. ''Estamos certos de que será possível solucionar os problemas causados por infeliz combinação de acontecimentos'', argumenta o presidente.
A empresa atuou 14 anos no mercado. No fim de maio deste ano, a Boi Gordo pediu à CVM o registro de companhia aberta. Em junho último, a empresa havia anunciado que iria lançar ações no mercado e que pretendia arrecadar R$ 300 milhões com a operação. A Boi Gordo estudava abrir o capital e iria negociar as ações na Sociedade Operadora do Mercado de Ativos, no chamado ''mercado de balcão''.
Outro motivo da crise, na versão da empresa, foi a mudança na conjuntura econômica mundial após os ataques terroristas sofridos pelos EUA. ''Os atentados coincidiram com o período de lançamento de nossas ações.''
O promotor de Justiça da comarca de Comodoro, Mauro Poderoso Júnior, informou (à repórter Rosângela Santiago, da Agência Estado) que sua primeira tarefa à frente do processo será iniciar uma investigação para averiguar a correção das informações e avaliar se não se trata de crime contra a economia popular, diante do grande número de investidores.
O promotor imagina que a Boi Gordo deu entrada no pedido de concordata no fórum de Comodoro sob a justificativa de que nesse município se concentra a maior parte dos seus investimentos, ainda que haja dúvidas de que funcione lá a gestão da organização.
Diante do porte do processo - as dívidas do grupo são avaliadas em R$ 2 bilhões - e da quantidade de credores, cerca de 24 mil em todo o País, a maioria no Estado de São Paulo, o promotor imagina que possa faltar ao fórum de Comodoro, onde militam um juiz e um promotor, a estrutura necessária para cuidar da questão. O município tem 20 mil habitantes.
Para muitos os problemas da Boi Gordo começaram no dia 27 de março, quando a CVM proibiu a empresa de emitir novos contratos porque descobriu a venda irregular de R$ 80 milhões em contratos desde o início do ano. Para ter validade, os contratos teriam de ser aprovados pela CVM antes de serem apresentados aos investidores.
Os pedidos precisariam ter sido encaminhados à autarquia, que tem cerca de 120 dias para analisar e aprovar nova emissão de títulos.





