-O País se prepara para mais uma grande safra de soja. Pena que a riqueza dessa produção não seja distribuída para todos os setores. A desoneração do ICMS, que deve continuar, trouxe vantagens e desvantagens na safra 96/97. As consequências já transparecem mais claramente. Se o produtor teve um ganho entre 13% e 15%, as indústrias amargam a redução do esmagamento. Para elas, a entressafra chega mais cedo este ano. Por conta disso, a atividade econômica está ‘‘abrindo mão’’ do valor agregado - transferido com o grão exportado - o que significa menos emprego, por exemplo, ainda que muitas indústrias aumentem sua importação de matéria-prima. Sobre a importação, que aumenta de históricos 1 milhão de toneladas para algo entre 1,5 milhão e 2 milhões de t este ano, a Abiove tem uma ressalva: a importação só é econômica para as indústrias situadas próximo aos portos.
-Com capacidade nominal para 35 milhões de t - e uma produção na última safra de 26,4 milhões de t -, o parque moageiro de soja está moendo este ano cerca de 18 milhões de t. Comparando: para uma produção quase igual, em 1995, as indústrias esmagaram 21 milhões de t. Com a desoneração do ICMS o setor rural ganhou, mas o urbano perdeu no campo social, com a liberação da mão-de-obra. Para o governo, nenhum desses dados importa. Mas há variável preponderante, a receita cambial. Com um mercado internacional favorável e o aumento da exportação, a receita da soja será de 5,4 bilhões, quase US$ 1 bi a mais que a do ano passado. A soja e o café são a grande alavancagem para livrar o governo na balança comercial.
-O economista Fábio Trigueirinho, secretário geral da Abiove, entrevistado ontem por este Jornal, disse acreditar que para a nova safra o governo deve adotar medidas de ajuste tributário. Ele aponta várias distorções e as perdas das indústrias, que são muitas e que não são apenas das indústrias, mas de um segmento distribuidor de renda. A desoneração bateu em cheio na questão social. Trigueirinho cita a distorção decorrente do ICMS dos Estados e o deságio que as indústrias sofrem na hora de negociar o crédito do imposto no seu respectivo Estado.
-Aumento da capacidade ociosa da indústria significa menor produção de óleo e farelo. Se a Abiove é cuidadosa com relação ao abastecimento e evita fazer projeções no sentido da oferta - para evitar especulação - algumas indústrias são menos parcimoniosas e já admitem problema no abastecimento de óleo em consequência da redução da oferta, uma hipótese que a Associação Brasileira de Supermercados não quer descartar. O Brasil consome 2,750 milhões de t de óleo e 5,5 milhões de t de farelo. Se o fantasma da escassez se configurar, o governo autoriza a importação, mas o custo da interiorização não vai permitir que a lata de óleo de soja continue a R$ 0,80. E o farelo pode respingar no frango, o herói do Real. Milho/crítica

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