Oswaldo Petrin
Não se vai poder debitar aos atos terroristas perpetrados em Nova York e Washington toda fúria cambial deste semestre, embora 12 dias depois do incidente, o dólar no Brasil recebeu uma alavancagem de 8,5%. Até segunda-feira porque esta semana, como se viu ontem, começou em baixa, uma reversão de tendência que se repetiu ontem, terça.
Como a moeda norte-americana permeia tudo, ou quase tudo, na economia, no setor de inumos - que vão encarecer o custo de produção dos alimentos - não poderia ser diferente. Só que o efeito dólar sobre estes custos vem se expressando antes do incidente.
A pedido desta coluna, a Cooperativa Valcoop apontou dados sobre os preços em dólar dos fatores de produção, tomando por base itens mais demandados. As cooperativas e as próprias indústrias amortizaram bem o impacto do preço do dólar sobre os insumos, segundo o engenheiro agrônomo Wilson Pan, presidente da Valcoop.
Em junho, com o câmbio a R$ 2,10/US$ 1,00, as indústrias negociaram seus produtos com o dólar a R$ 1,70, portanto, uma boa diferença, considerando o grande volume negociado.
As indústrias continuaram reajustando, mas o deságio também prevaleceu. Em agosto, com o dólar comercial a R$ 2,50, as indústrias trabalharam a R$ 2,20. Em setembro, quando o dólar chegou R$ 2,70, o setor praticou R$ 2,50.
O impacto sobre os preços dos produtos usados na agricultura - num período que ainda concentra grande parte das compras -, teria sido de 30%, num cálculo de transferência linear de custo. Mas, como explica Pan, parte desse diferencial foi diluída nas negociações e as cooperativas tiveram um papel importante como repassadoras. Há ainda o fator estoque de itens adquiridos a preços de três a quatro meses atrás.
Portanto, nem tudo deve transparecer nos custos de produção. Ou seja o preço para produzir alimentos não precisa aumentar, necessariamente, na exata proporção da inflação da moeda.
Mas o próprio Pan chama a atenção: os preços de agroquímicos nas compras após dezembro - ainda para a safra de verão mas, principalmente, para a safra de inverno, no caso milho e trigo - devem incorporar o custo real da moeda.
E aí, então (não é Pan quem diz, mas a conclusão é lógica), muitas distorções que ocorram com os custo de produção devem ser atribuídas ao descontrole do câmbio.
O efeito dominó será apenas uma questão de tempo: o custo reflete no agronegócio, que por sua vez transfere para o varejo, que por sua vez leva para a mesa do consumidor. Ano que vem, ainda no primeiro semestre, a trajetória do Plano Real terá contornos bem diferentes. E mesmo que FHC queira segurar a inflação com o sacrifício do campo, não vai conseguir. (Sobre preço dos insumos veja mais nesta página.)





