O varejo, sem retoques


Dias atrás, em entrevista a esta coluna sobre a prática dos supermercados - de fazer promoções em cima de produtos agrícolas, cujos preços são invariavelmente achatados -, o presidente da Associação Brasileria de Supermercados (Apras), José Humberto Pires de Araújo, não mostrou muita preocupação com o assunto.

''A gestão de cada empresa (supermercado) é da responsabilidade da própria empresa. Não há influência da Apras, seja de ordem comercial, administrativa ou financeira. A entidade defende interesses maiores...''

Embora autêntico, o presidente da Abras, deixou entrever que a entidade não está empenhada em evitar essas promoções (na verdade são distorções) - que, em geral deixam os fornecedores constrangidos.

Na outra ponta da cadeia alimentar, o consumidor agradece. Porém é ilusório achar que ele sempre sairá lucrando. Tudo tem seu preço, mesmo para quem não acredita no fim da galinha dos ovos de ouro.

Mas, se o achatamento dos preços dos alimentos de origem agropecuária não é assunto para a Abras - como sugere a resposta do seu presidente -, pelo menos outro procedimento do varejo está tirando o sono da entidade: a maquiagem de produtos. Está na mídia e não há como ignorar que isto está prejudicando a imagem do varejo.

Só que no caso das embalagens que falseiam a verdade sobre o conteúdo, a Abras tem que encarar de frente e seu presidente vai logo esclarecendo (Agência Estado, Jacqueline Farid, ontem): ''Somos responsáveis apenas por levar os produtos ao consumidor.'' Segundo a Abras, apesar das constantes negociações com fornecedores, para evitar aumento de preços, os supermercadistas não tinham conhecimento do problema gerado pela mudança nas embalagens.

Convincente ou não, vai ser difícil para a Abras contornar essa crise no varejo. O consumidor hoje está cioso dos seus direitos, é mais exigente e, aos poucos, mesmo sem querer, vai incorporando o conceito de cidadania que permeia sua postura diante do ambiente externo com quem se relaciona sejam instituições, comércio ou condições adversas. A Abras vai ter que trabalhar muito sua imagem. Com ou sem maquiagem.

Leitura Dinâmica

- A Organização Mundial do Comércio (OMC) vai mesmo discutir os subsídios agrícolas. Não haverá como excluir o tema, como pretendiam EUA e UE.

- Neste ponto, a reunião de Punta del Este (Uruguai) dos países exportadores agrícolas da OMC (que não se valem da prática de subsídio à exportação) saiu vitoriosa.

- O que eles querem: esses países, do Grupo de Cairns, defendem a eliminação de subsídios à exportação e a redução do apoio interno aos produtores agrícolas.

- Subsídios e outras formas protecionistas são praticados pelos países mais desenvolvidos e afetam tanto a competitividade quanto os preços de venda dos produtos dos países em desenvolvimento.

- Produtores e agroindústeria brasileiros têm muito a ver com isso. As muitas formas de proteção dos Estados Unidos afeta de ponta a ponta grande número de produtos brasileiros: carnes, oleaginosos, fibras, etc.

- Lutar contra as distorções causadas pelos preços artificiais e outras consequências da proteção que os países ricos adotam para seus produtos, é uma forma de dizer não aceitar a exploração e a pobreza.

DROPS

Soja/Chicago Preço da soja caiu 5,75 centavos de dólar por bushel ontem na Bolsa de Chicago. Contratos de setembro fecharam a US$ 4,73/bushel (US$ 10,43/saca de 60 kg). Motivo: temores dos traders em relação à estimativa de produção da safra 2001/02, a ser divulgada hoje por empresas privadas. (Veja mais na página 4).

Milho/crise O abastecimento de milho deve entrar em crise no começo do próximo ano. Oferta e demanda estarão muito ajustadas e a importação será difícil, num quadro de escassez geral do produto.

Estoque baixo As reservas de milho no Brasil devem virar o ano com um estoque entre 1,5 milhão de toneladas a 2,0 milhões de toneladas, somando o que há no mercado e o que é do governo. Alguns analistas acham que este número é demasiado otimista pois os estoques do governo não devem passar de 1,5 milhão de t.

No mundo Estados Unidos, China e Argentina, os maiores produtores, estão com estoques baixos e menor produção de milho este ano. As indústrias brasileiras não poderão recorrer à importação a não ser em pequenas quantidades, para suprir emergências.

Preço alto As consequências dessa situação de escassez geral de milho serão os preços altos. O milho vai ser supervalorizado podendo repetir neste final de ano o que aconteceu no ano passado, quando suinocultores de Toledo tiveram que pagar até R$ 14,00/saca.

Vai faltar Talvez não chegue ao ponto de faltar milho, segundo os analistas de mercado, mas uma coisa é certa: o preço começa a subir no último trimestre pressionado pelas informações sobre estoques.

Antes da safrinha Agricultores que souberem interpretar, neste momento, o quadro de escassez e a tendência de alta do preço, talvez nem esperem a safrinha para aproveitar uma nova boa fase do milho. Neste caso, farão a opção pelo milho agora, na safra de verão, aproveitando os bons preços a partir de janeiro.

Mudança A decisão de plantar milho já aconteceu, o agricultor começa a pensar nisso em março. Mas ainda há tempo para rever a posição, desde que se vislumbre a certeza de uma alta de preços. Segundo os técnicos o aumento de preços é dado como certo.

Pacto O pacto proposto no mês passado pelas indústrias do Paraná e Santa Catarina e produtores, através de suas cooperativas, fixando o preço de R$ 10,00 a partir de fevereiro está superado. ''Ninguém vai vender o milho por menos de R$ 12,00 (ao produtor), a partir de janeiro'', previu ontem o operador de mercado de uma cooperativa.

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