Oswaldo Petrin
Além de torcer para o fim da crise argentina; além de se esforçar para cumprir metas fixadas pelo FMI, e torcer para que não haja ataque especulativo das bolsas; para que a aftosa não se alestre, enfim, além de torcer contra tandas adversidades econômicas, o governo FHC tem que torcer agora contra outra adversidade, só que esta é imponderável: a geada. Se gear, os preços da cesta básica explodem e o plano vai para o espaço.
Pelo menos é desta forma que os técnicos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) colocam o iminente descontrole dos preços. Não adiantou, portanto, segurar o consumo com altas taxas de juros e outras formas de engessar a atividade econômica. (Só não conseguiu deter as tarifas públicas).
As metas do governo estão comprometidas. Ontem, novos dados prenunciaram a volta da espiral inflecionária. É que a Fipe concluiu um balanço dos sete anos do Plano Real. À exceção do período de julho de 97 a junho de 98, os alimentos sempre subiram menos do que a inflação média. No acumulado do Real, os alimentos subiram 54%, contra inflação de 92%.
A inflação está a um fio de ultrapassar a meta máxima de 6% fixada pelo BC para este ano. Após os estragos feitos pelas tarifas, basta uma geada para os preços superarem essa meta. A análise é de Heron do Carmo, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe meta da inflação para 2001, pelo IPCA, é de 4%, com variação de dois pontos percentuais, para cima ou para baixo.
As tarifas serão responsáveis por 48% da taxa de inflação deste ano, nos cálculos da Fipe. A instituição prevê uma taxa de 5,5% no IPC em 2001 em São Paulo. Só as tarifas vão gerar uma inflação de 2,65%.
As tarifas, que vêm ganhando de longe da taxa média de inflação nos últimos anos, estão com reajustes bem distanciados dos 4% da meta fixada inicialmente pelo BC, diz o economista. Energia elétrica (16,61%) e tarifas de ônibus (21,74%) são os destaques.
Heron do Carmo diz (entrevista a Mauro Zafalon, da Agência Folha) que o dólar caro pressiona as tarifas, que pressionam o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado, da Fundação Getúlio Vargas), que volta a pressionar as tarifas porque é o índice de inflação aplicado nos reajustes dos serviços públicos.
As tarifas públicas, que já foram responsáveis pela aceleração da inflação no mês passado, vão continuar determinando o comportamento dos preços de julho a setembro. A inflação desse período deve ficar, no mínimo, em 0,60% ao mês nas previsões da Fipe.
A inflação de junho foi de 0,85% em São Paulo, e só as tarifas geraram uma taxa de 0,68%. Heron do Carmo diz que a inflação deste ano tem uma trajetória diferente da registrada em 2000. O acumulado deste primeiro semestre foi de 2,66%, contra 0,89% no mesmo período de 2000. No segundo semestre, no entanto, a taxa vai ser menos acentuada, desde que não ocorram geadas.
Nos últimos 12 meses até junho, os preços subiram 6,23% para os paulistanos. O economista da Fipe acredita que a estabilidade nos preços no último trimestre deve trazer essa taxa para 5,5% até dezembro. Os alimentos, que foram o vilão no início do ano, vão continuar segurando a taxa de inflação, o que já ocorre desde maio.
A inflação acumulada no Real é de 92,15%. Apenas alimentação, vestuário e despesas pessoais tiveram reajustes inferiores a essa taxa. Os custos com habitação (175%), devido às tarifas públicas, lideraram as altas no período. A seguir vieram os setores de educação (164%), transportes (146%) e de saúde (137%).





